        Titulo: A Caminho do Exlio.

Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1990.
Ttulo Original: Terror from the throne.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Maria Fernanda Pereira.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor, 
este ficheiro no pode ser distribudo para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.
Barbara CARTlAND
A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes de livros vendidos em todo o mundo
A caminho do exlio
O luar incidia sobre o convs do iate que levava
a princesa Victoria para o exlio. Absorta, ela
no via a beleza da noite estrelada. Em sua
mente, as cenas ocorridas no palcio de Klaklov ainda estavam vvidas. com horror, lembrou-se
de sua noite de npcias, quando descobriu que o
rei, seu marido, homem devasso e viciado em
drogas, queria que participasse de suas orgias.
Ento, fugiu. Ocultando' sua identidade,
conseguiu ajuda de um misterioso desconhecido...
Agora que estava  merc do destino, ela decidiu que nunca mais ousaria sonhar com o amor.
NovaCULTURAL
Barbara Cartland
A Caminho do exlio
Leitura - a maneira mais econmica
de cultura, lazer e diverso.
Ttulo original: Terror from the throne.
Copyright: Barbara Cartland
Traduo: Carmita Andrade
Copyright para a lngua portuguesa: 1990
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 - 3? andar
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impresso e Acabamento: Crculo do Livro S. A.
NOTA DA AUTORA
A cocana  produzida por um arbusto sempre verde, Erythroxylum coca, que floresce no oeste da Amrica do Sul e em algumas regies do Extremo Oriente.
O ativo alcalide pode ser absorvido mastigando-se as folhas, fumando, em chs, cheirando-se ou atravs de injees.
Hoje em dia, a cocana tem muito poucas indicaes mdicas, limitando-se s empregadas em uso local, como anestesia.
Foi substituda por produtos anlogos, sintticos.
 um estimulante do corpo em geral, e do crebro especificamente, provocando excitao e prazer.
Bloqueia o apetite e retarda a fadiga, para ser seguida, mais tarde, por completa exausto.
 necessrio tomar mais de uma dose para manter o esprito alto e a energia; assim comea a dependncia.
CAPTULO I
1896
- No adianta! - exclamou a rainha Victoria. - No posso dar o que no possuo. Atualmente no h princesas da famlia real em disponibilidade.
Ela falava com determinao.
A soberana irritava-se quando lhe pediam que designasse uma de suas parentas a algum trono da Europa, no caso de no haver nenhuma disponvel.
O primeiro-ministro, o marqus de Salisbury, deu um suspiro, enquanto o conde de Rosebery, secretrio de Estado de Assuntos Exteriores, franzia a testa.
Aps um silncio constrangedor, o marqus disse:
- Sei que Vossa Majestade sabe melhor que qualquer um como  importante conservar os pases balcnicos, mesmo o menor deles, longe da influncia russa.
A rainha no ignorava essa necessidade premente.
A verdade era que a Rssia usava de todos os meios possveis para provocar motins nos Balcs.
Incitava revolues a qualquer pretexto.
Houve outro silncio embaraoso at que o conde de Rosebery arriscasse uma sugesto.
- Tenho uma ideia, mas no sei se Vossa Majestade a aprovaria.
- Que ideia  essa? - indagou a rainha.
Ela inspirava pavor nos sbditos, em especial quando se aborrecia com seus estadistas por alguma falha diplomtica.
- Penso, madame - explicou o conde -, que a princesa Beatrice de Leros tem uma filha na idade de se casar. A rainha encarou-o, perplexa.
- Lembra-se dela, madame? - continuou o conde. Quando voltou para a Inglaterra, aps o assassinato do marido, o prncipe Philimon, Vossa Majestade permitiu que a 
princesa e a filha morassem numa das pequenas casas onde os membros pobres da famlia real vivem, nas redondezas do palcio em Hampton Court.
- Isso foi h muitos anos - admitiu a soberana. Honestamente, confesso que havia me esquecido delas.
- A princesa Beatrice - interrompeu-a o marqus de Salisbury -  parenta distante de Vossa Majestade. De fato, no pertencia  realeza at o prncipe Philimon vir 
 Inglaterra e apaixonar-se por ela. Casaram-se, apesar dos protestos do governo grego.
- Recordo-me de alguma coisa a esse respeito agora
- confessou a rainha. - Mas, como bem dizia o primeiroministro, a princesa Beatrice  parenta muito distante.
- De qualquer maneira - replicou o primeiro-ministro -, ao se casar com o prncipe Philimon, tornou-se membro da realeza grega.
- Sim, sim, naturalmente.
A soberana irritava-se consigo mesma por no haver se lembrado da princesa.
Tambm considerou o marqus de Salisbury um tanto quanto insistente.
- A menos que eu esteja enganado, madame - o conde de Rosebery acrescentou -, a filha da princesa tem o mesmo nome de Vossa Majestade, e deve estar agora com dezoito 
anos de idade.
A rainha deu um profundo suspiro.
Os dois estadistas aguardavam com apreenso a resposta dela. Sabiam que a soberana detestava quando membros reais de pouca importncia eram balizados com seu nome.
Acontecia que, muitas vezes, gratos por ela lhes ter arranjado casamento, pagavam a gentileza dando  primeira filha o nome de Victoria.
No presente, havia mais ou menos vinte membros femininos da famlia real ocupando tronos da Europa, com esse nome.
Embora ela protestasse continuamente ao primeiroministro e ao secretrio de Estado contra tal costume, existiam muitas "rainhas Victorias".
Lembrando-se de repente, disso, o conde de Rosebery falou depressa:
- Acho que a filha da princesa Beatrice foi sempre chamada de "Tria", uma vez que os ingleses achavam seu segundo nome, Aleris, difcil de ser pronunciado.
A rainha acalmou-se um pouco e respondeu:
- Suponho, nessas circunstncias, que devemos chamar a filha do prncipe Philimon de Aleris. A menos que resolvamos no ajudar o rei Inged dos Balcs.
- Mas, como estou certo de que Vossa Majestade vai ajud-lo - admitiu o marqus -, gostaria de saber se posso enviar um mensageiro ao Hampton Court Palace imediatamente.
Aps certa hesitao, a rainha perguntou:
- Sei muito pouco acerca do rei Inged. Ele j esteve na Inglaterra?
- No, madame. No h nada nos arquivos, exceto informaes recentes de que os russos tentam se infiltrar no reino dele. Naturalmente, por esse motivo, o rei Inged 
procura a proteo de Vossa Majestade, casando-se com uma princesa inglesa.
Era sabido que, quando um pequeno reinado ou principado da Europa estava sob a proteo da Gr-Bretanha, os invasores tomavam mais precauo em seus atentados.
Politicamente, esses pequenos reinos achavam-se sempre em grande perigo.
Os russos infiltravam-se onde podiam, em particular nos Balcs.
A rainha insistia em ser informada sobre qualquer movimento desse tipo, pois a Gr-Bretanha, em contrapartida, precisava do apoio desses pases.
Todas as princesas inglesas disponveis haviam se casado com soberanos de reinos europeus.
Alguns desses reinos eram to minsculos e obscuros que ocupavam um espao mnimo nas cartas geogrficas. Porm, sob a proteo britnica, adquiriam enorme importncia.
- Muito bem - disse a rainha ao primeiro-ministro.
- Mande um recado  princesa Beatrice e  filha para que venham me ver o mais breve possvel.
Ela olhou para o conde de Rosebery e acrescentou:
- Preciso de mais informaes sobre Klaklov e o rei. Parece-me extraordinrio ele nunca ter se comunicado comigo antes.
- vou providenciar isso de imediato, madame - replicou o conde.
Os dois estadistas levantaram-se, beijaram a mo da rainha e saram da sala com dignidade, sem lhe dar as costas.
Fechada a porta, o conde de Rosebery deu um profundo suspiro.
- Assim resolvemos um grande problema - disse. O primeiro-ministro riu, dizendo:
- Eu teria apostado enorme soma como a rainha no aprovaria esse casamento.
- Apenas por um triz conseguimos tudo. Mas, embora a soberana tenha se esquecido momentaneamente de sua animosidade contra o prncipe Philimon, garanto que agora 
se lembrar de cada detalhe.
- Claro, claro - concordou o marqus. - Ningum ganha dela no concernente  prpria famlia.
- Pensei por segundos que ela fosse negar que a princesa Beatrice era sua parenta - argumentou o conde.
-  parenta bem distante, contudo - observou o marqus. - E no se esquea de que, se retrocedermos no tempo, somos todos parentes por parte de Ado e Eva...
O conde riu muito. O som de sua gargalhada ressoou pelos corredores sombrios do castelo de Windsor.
Construdo originariamente para ser uma fortaleza, o
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castelo conservava ainda sua atmosfera assustadora.
Fora, no ptio, a carruagem aguardava pelos dois estadistas, a Fim de conduzi-los de volta a Londres.
No caminho, ambos pensavam que a audincia com Sua Majestade sara melhor do que ousaram esperar.
 noite, a princesa Beatrice surpreendeu-se ao receber uma carta do secretrio de Estado de Assuntos Exteriores.
Informava-a de que ela e a filha deviam comparecer ao castelo de Windsor no dia seguinte, por ordem direta de Sua Majestade a rainha Victoria.
Uma carruagem lhes seria enviada pela manh e, se possvel, o conde de Rosebery as conduziria, em pessoa, ao castelo.
A princesa leu a carta vrias vezes, sentada na pequena sala da casa que lhe fora concedida por favor, na rea do palcio em Hampton Court.
Ela relia a carta, intrigada.
Nos dez anos que morou na Inglaterra, aps a morte do marido, jamais teve a mnima comunicao com a rainha.
Isso no a espantava, contudo.
A soberana tentara dar ordens ao prncipe Philimon quanto  maneira de governar a pequena ilha grega sob seu comando.
O prncipe aceitara casar-se com uma inglesa, parenta distante da rainha.
Consequentemente, Sua Majestade considerava-se no direito de dizer-lhe como reinar.
Philimon tinha mais de trinta anos por ocasio do casamento, e ideias bem definidas.
Ressentiu-se, por isso, da interferncia da rainha e insinuou-lhe, talvez sem muito tato, que cuidasse de suas prprias atividades.
A rainha ficou furiosa.
Quando dois anos mais tarde o prncipe foi assassinado, o secretrio de Estado de Assuntos Exteriores teve dificuldades em persuadi-la a escrever uma carta de psames 
 viva.
Sua Majestade no recebeu bem a princesa Beatrice quando ela retornou  Inglaterra, para salvar no apenas sua vida, mas a da filha.
A rainha no queria aceit-la de volta. No foi fcil ao primeiro-ministro convenc-la a permitir que a princesa Beatrice morasse, gratuitamente, numa das pequenas 
casas destinadas a abrigar os membros pobres da nobreza.
- Sua Alteza Real no tem dinheiro, Vossa Majestade - insistiu ele.
- E a culpa  minha? - replicou a rainha. Houve uma pausa desagradvel antes de o secretrio de
Estado, que tambm estava presente, dizer:
- No posso crer que Vossa Majestade pense ser aconselhvel uma princesa real aceitar a caridade de estranhos.  o que ela ser obrigada a fazer, na misria em que 
se encontra no momento.
- E a famlia dela? - indagou a rainha.
- com exceo de Vossa Majestade - ousou o primeiro-ministro argumentar -, todos morreram ou vivem to pobremente que mal podem cuidar de si. No h lugar na casa 
deles para a princesa e a filha.
Enfim, a rainha cedeu.
 princesa Beatrice foi alojada na casinha menor e menos acolhedora do alojamento do Hampton Court Palace.
Ela recebia tambm uma pequena mesada que o secretrio de Estado considerava quase um insulto.
Contudo, a princesa sentia-se extremamente grata.
Por ser um homem bondoso, o conde de Rosebery, mais tarde, quis ter notcias dela.
E descobriu que a princesa aumentava a pequena renda vendendo seus bordados, perfeitos alis.
Assim, podia prover as necessidades de casa e cuidar da educao da filha.
O irnico de tudo era considerar que a menina chamava-se
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Victoria.
Isso porque o prncipe Philimon quis render uma homenagem  soberana por permitir que ele se casasse com a mulher que amava.
Naquela ocasio, a rainha ainda no interferia na administrao de seu domnio.
Muito breve, contudo, o prncipe Philimon percebeu que cometera grave erro.
Mas no podia trocar o nome da menina. Apenas tinha condies de abrevi-lo.
Resolveu cham-la de Tria.
To logo terminou de ler a carta do conde de Rosebery, a princesa Beatrice gritou:
- Tria! Tria!
Esse apelo ecoou pela pequena casa, at o segundo andar.
- Estou indo, mame - replicou a filha. Segundos depois Victoria entrava na sala.
A me achava-se de p, junto  janela. Segurava na mo a inesperada carta, que lia de novo. Deu-a  filha, dizendo:
- No sei o que isso significa, Tria, e tenho medo de adivinhar.
com expresso intrigada, a filha pegou a carta e leu-a.
A princesa fitava-a, como se a visse pela primeira vez na vida.
Era muito linda.
Herdara as linhas clssicas do pai, grego de feies perfeitas.
Seus olhos tinham a cor azul profunda do mar, como os da me.
Os cabelos no eram iguais aos do pai nem aos da me. Dourados, com as pontas avermelhadas, pareciam irradiar o calor do sol.
De tez muito alva, e corada, traduzia bem o "pssego e o creme" da beleza britnica.
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Mas Victoria herdara os longos clios escuros idnticos aos do pai grego.
Era, enfim, uma beldade fora do comum.
Sendo to pobres e pouco importantes na escala social, a princesa Beatrice preocupava-se quanto ao futuro da filha.
Ela j completara dezoito anos. Encontraria um marido adequado?
Os moradores do abrigo de Hampton Court Palace tratavam-nas muito bem.
No obstante, eram todos velhos, pessoas que viviam  sombra do grande palcio, esquecidos do mundo.
E agora, a princesa mal podia acreditar, chegava uma carta ordenando-lhes a comparecer no castelo de Windsor.
Beatrice via apenas uma razo para isso, mas no ousava p-la em palavras.
Victoria terminava de ler a carta.
- Fomos convidadas para ir ao castelo, mame - declarou ela estupefata. - Que houve para a rainha lembrarse de ns, aps portar-se to desagradavelmente?
- Cuidado, querida! No fale assim! - suplicou-lhe a princesa. - Como sabe, a rainha nunca perdoou seu pai, que a enfrentou. Por esse motivo, durante todos estes 
anos, ela no tomou conhecimento de nossa existncia.
No havia amargor na voz da princesa Beatrice. Apenas tristeza.
Aps a rainha haver se recuperado da dor pela perda de seu amado prncipe Albert, a princesa esperara, rezan- do que Victoria fosse convidada para alguma das recepes 
do castelo. *
Mas os anos se passavam sem que nada acontecesse.
As duas mulheres precisaram fazer, das pessoas que viviam no abrigo, seu mundo.
O que significava que Victoria nunca havia ido a uma festa frequentada por jovens iguais a ela.
Nunca fora a um baile.
Mais importante ainda, nunca tinha sido apresentada
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 rainha, num dbut.
E agora, de repente, aquela carta!
A princesa no sabia o que pensar.
A menos que... e seu corao quase parou de bater... a rainha houvesse arranjado um marido para Victoria, como fazia com todas as mulheres de sua famlia.
Os moradores do abrigo no tinham comunicao alguma com o palcio de Buckingham, com o castelo de Windsor, ou com Marlborough House.
No entanto, por vias indiretas, sabiam de tudo.
Falava-se sobre a recuperao gradual da rainha que emergia dos dias negros do luto do prncipe Albert.
Discutia-se acerca de tudo que se passava no palcio de Buckingham.
Comentava-se que o prncipe de Gales e a princesa Alexandra com frequncia representavam a rainha nas funes do Estado.
Os falatrios, em voz baixa, referiam-se aos casos amorosos do prncipe de Gales.
A paixo dele por uma beldade aps outra, que comeara com a artista Lily Langtry, no passava despercebida ao grupo do abrigo.
A Victoria,  claro, no era permitido tomar parte nessas conversas.
Mas ela no estava particularmente interessada em tais casos.
Sua me providenciara-lhe aulas extras. E ela achava essas aulas muito interessantes, pois era bem diferente das demais moas de sua idade.
A viva de um embaixador da Inglaterra, na Frana, ensinava-lhe francs.
Era uma senhora francesa mas que, estranhamente, preferira morar na Inglaterra a voltar a seu pas.
Ela adorava ter Victoria como aluna.
E recusara, apesar da insistncia da princesa, aceitar pagamentos pelas aulas.
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Tria falava o puro francs parisiense. Aprendera tambm a cozinhar pratos franceses, porque a ex-embaixatriz cuidava de sua prpria comida. No conseguira uma cozinheira 
francesa.
A princesa Beatrice insistia que a filha no se esquecesse do grego, lngua que usara com o pai.
Havia, por sorte, entre a enorme diversificao de habitantes do abrigo, um velho diplomata que morara por muitos anos na Grcia.
Ele fora tambm designado, certa vez, para a ustria. Podia, ento, ensinar a Victoria o grego e o alemo.
E, por ser ele um homem estudioso, conhecia o russo e transmitia  princesa algum conhecimento desse idioma.
Assim, ela se tornara fluente em muitas lnguas estrangeiras.
O diplomata explicara-lhe como fora fcil para ele, quando jovem, mudar de um pas para outro. Aprendia a lngua conversando com as pessoas na rua.
-  o que pretendo fazer, se viajar - suspirava Victoria.
- Precisa arranjar um marido diplomata - respondia ele. - Imagine como voc ser til a seu marido, com sua facilidade em aprender lnguas!
Ela ria muito.
Porm, muitas vezes, ao voltar para sua casinha depois das aulas com o diplomata, pensava em como seu mundo era restrito.
No fosse pelas pessoas inteligentes que moravam nas redondezas do palcio, ainda que velhas, ela se sentiria deprimida.
Victoria ia de casa em casa, e era bem recebida em todas elas, como se se tratasse da visita de um anjo.
Gostava de ouvir a conversa desses vizinhos. E os velhos moradores do abrigo contavam-lhe fatos de suas vidas passadas, dos lugares onde moraram. E comentavam sobre 
as situaes assustadoras ou inusitadas que encontraram na vida.
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-  como assistir a um espetculo no teatro - ela dissera um dia  me.
-  bom que se sinta assim, querida - replicara a princesa. - Voc  to parecida com seu, pai!Ele uma vez me disse: "Encontrei um homem interessante hoje. Ele esteve 
no Tibete, lugar que eu adoraria conhecer". E seu pai descrevia o Tibete com tanta vivacidade que eu me sentia como se estivesse l, nas montanhas e nos desfiladeiros 
perigosos de Lhasa.
-  o que eu quero fazer um dia - ela respondera.
A par de toda essa informao que recebia por intermdio de seus vizinhos, havia tambm Hampton Court Palace para completar sua educao.
Fora a rainha Victoria quem, apesar das oposies, conseguira abrir o local ao pblico.
Para Victoria era uma alegria indescritvel percorrer sala por sala, recordando-se das histrias que tiveram lugar ali.
" a melhor educao que minha filha pode receber", pensava a princesa Beatrice "muito superior aos ensinamentos de qualquer governanta."
Ou at de uma escola para moas, como era moda na ocasio.
Victoria entendia-se bem com o bibliotecrio do palcio que lhe permitia ler todos os livros que desejasse.
Depois de ter relido a carta, Victoria exclamou, muito entusiasmada:
- Enfim, vamos nos encontrar com a rainha! Falamos tanto sobre ela, e todos dizem que  assustadora!
- No posso imaginar por que ela deseja nos ver aps tantos anos - comentou a princesa Beatrice.
- Talvez sua conscincia a perturbe - observou. Ou, quem sabe, ela queira que saiamos desta casa...
A princesa Beatrice deu um grito de horror.
- Nem pense nisso, Tria. Que poderemos fazer se esse for mesmo o motivo?
- Estava brincando, mame. Garanto que a rainha no
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 to cruel assim, mesmo que se comente que at homens corajosos tremem s ao pensar numa entrevista com ela. O prncipe de Gales no faz uma exceo  regra.
- No devia prestar ateno a falatrios, Tria! murmurou a princesa.
-  s no que se fala! Sabe, mame, nada emociona mais nossos amigos do que estar a par do ltimo romance do prncipe herdeiro.
A princesa Beatrice deu uma exclamao de pavor.
- Tria, no fale dessas coisas! E se a rainha a ouvisse? Ela riu muito.
- A rainha jamais me ouvir. Moramos aqui h dez anos, mame, e ela nunca nos mandou nem um carto de Natal!
A princesa Beatrice sabia que era verdade.
Mas, por ser esse um assunto que preferia evitar, apenas disse:
- Que roupa vamos pr? Oh, Tria, precisamos nos apresentar da melhor maneira possvel.
Por terem muito pouco dinheiro, a princesa fazia, ela mesma, os vestidos para si e para a filha. Por sinal, com grande habilidade e arte.
No obstante, os tecidos usados eram os mais baratos encontrados nas lojas.
Temia apresentar-se como uma mendiga, comparada s outras damas do castelo.
Na manh seguinte, a princesa e sua filha estavam prontas muito antes de a carruagem chegar.
Nada podia ser mais simples que o vestido azul-marinho de Victoria e a jaqueta com pequena passamanaria em volta do pescoo.
Mas tudo ficava bem nela. Victoria transformava a roupa mais modesta num traje elegante.
A toalete despretensiosa no conseguia esconder sua cintura fina, as linhas suaves do corpo, e a graa no andar.
O chapu tambm era muito simples; mas assemelhava-se
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a uma aurola ornamentando seus cabelos dourados.
Por estar muito excitada, os olhos da jovem brilhavam como estrelas.
As duas mulheres foram de Hampton Court Palace ao castelo em uma confortvel carruagem puxada por dois cavalos brancos.
O cocheiro trouxera consigo um recado do conde Rosebery, desculpando-se por no poder acompanh-las pessoalmente, como pretendia.
- Ao menos, chegaremos no castelo em grande estilo
- comentou Victoria.
A distncia a percorrer era bastante grande e ela usufruiu de cada minuto da viagem. Olhava pela janela e comentava sobre tudo.
- Veja, mame, veja quantas pessoas fazendo compras nesta ruazinha estreita!
Havia um homem tocando violino com um cachorro a seus ps.
- Ele toma conta do dinheiro que os transeuntes jogam no chapu de seu dono - explicou Victoria.
Qualquer coisa era motivo de alegria para a moa.
Quando finalmente chegaram ao castelo, ela deliciou-se com a pompa e a grandiosidade do edifcio.
S quando a carruagem parou foi que ela se deu conta de que a me no dera uma palavra o caminho inteiro.
A princesa. Beatrice estava, na verdade, preocupada com a entrevista.
- Coragem, mame! - insistiu. - Afinal de contas, a rainha no vai nos comer. E, a menos que faamos alguma bobagem, teremos o prazer de voltar tambm de carruagem 
para nossa casa!
A princesa Beatrice forou um sorriso.
E, quando ambas entraram no hall de teto alto do castelo de Windsor, atravs da pesada porta de carvalho, Victoria percebeu que a me rezava.
Um jovem e atraente ajudante-de-ordens esperava por elas a fim de conduzi-las  sala da rainha.
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Victoria encontrara, em sua vida, muito poucos rapazes. Mas era bastante inteligente para notar que o ajudante de ordens a fitava, primeiro com surpresa, depois 
com inegvel admirao.
- Creio que essa  a primeira visita das senhoras ao castelo - disse ele.
- Nossa primeirssima visita! - exclamou Victoria. E, por nunca ter estado aqui antes, apesar de ter ouvido falar muito acerca do castelo, j comeava a pensar que 
se tratava de pura fico.
O ajudante-de-ordens riu muito. Garanto-lhe que o castelo  slido e no vai derreter, se  o que a preocupa.
- Espero que no desaparea! Ao menos antes de eu visitar sala por sala.
O rapaz riu mais uma vez.
Enquanto caminhavam pelos longos e tortuosos corredores, ele chamava a ateno dela para detalhes interessantes.
Chegavam  ala particular da rainha.
O conde de Rosebery, que aguardava por elas, apareceu.
Desculpou-se com a princesa Beatrice por no ter podido ir busc-las em casa, como pretendia.
- Espero que Vossa Alteza Real entenda que, na minha posio, nunca sei o que vai ocorrer de um momento para o outro. Embora lamente o fato, no posso estar em dois 
lugares ao mesmo tempo. A princesa sorriu.
Victoria considerou o secretrio de Estado bastante diplomtico e compreensivo.
"Ele percebeu que a mame est nervosa", pensou. "Quer p-la mais  vontade."
O conde e a princesa conversaram por alguns minutos, e as poucas palavras que trocaram entre si deram nimo  princesa, agora menos plida do que ao chegar. Tinha 
um ar mais relaxado e mais feliz. O momento esperado chegou enfim. O ajudante-de
ordens precedeu-as e abriu-lhes a porta da sala da soberana.
Pelo modo como todos se comportavam, Victoria teve a impresso de que entravam num templo sagrado, no numa sala de visitas.
Mas essa sala de visitas era, sem dvida, diferente das demais.
Havia uma profuso de fotografias com moldura de prata, e pequenas mesas repletas de objetos ornamentais.
As poltronas e os sofs eram cobertos com capas de cor discreta.
E, numa extremidade da sala, estava a rainha.
No se sentava como Victoria julgara, num trono de ouro, nem usava coroa.
Era apenas uma mulher de idade, pequena, que vestia luto pesado.
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CAPTULO II
- Passarei pela casa de Vossa Alteza Real amanh disse o conde de Rosebery  princesa Beatrice - e levarei comigo o ministro de Klaklov.
- Aguardaremos o senhor com prazer - replicou a princesa.
O conde de Rosebery despediu-se das duas mulheres, um lacaio fechou a porta da carruagem, e os cavalos partiram.
Nenhuma das duas falou at passarem pelo enorme porto e comearem a descer a rampa.
Victoria olhava pela janela, mas estava alheia ao que acontecia ao redor.
A me fitou-a.
Depois, um pouco nervosa, exclamou:
- Foi uma grande surpresa, no, querida?
- No quero me casar com o rei Inged - declarou Victoria com voz firme.
A resposta dela ressoou na carruagem de janelas fechadas.
- Entendo que foi um choque para voc, minha filha. Porm, querida, voc ser uma rainha!
Ela no respondeu.
Sentia ainda, como sentira quando a rainha lhes comunicara a razo da visita, que o teto desabava sobre sua cabea.
Como podia aquilo ser possvel?
E como podia crer, por um segundo, que iria se casar com um homem que. nunca vira antes?  que teria de'percorrer enorme distncia para conhec-lo?
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A rainha Victoria tornara as coisas bem claras, isto , que se tratava de privilgio e honra para ela ser rainha de Klaklov.
Alm disso, o Imprio Britnico daria toda a assistncia ao pequeno pas, garantindo-lhe estabilidade.
A rainha no entrara em pormenores quanto  ameaa russa nos Balcs.
Porm, Victoria estava a par dessa situao perigosa.
Em suas conversas com o velho diplomata, que lhe ensinava lnguas, ouvira acerca dos problemas que tinham lugar na Europa.
Soubera que a Rssia tencionava anexar a ndia a seu territrio!
Aprendera que os russos exerciam grande presso nos pases balcnicos, e isso preocupava o velho diplomata profundamente.
Por ter muito poucos amigos de sua idade, Victoria discutia esses assuntos com ele.
E, por se interessar por poltica, ela o escutava com ateno.
Contudo, nunca, nem mesmo em pesadelo, imaginou possvel ser obrigada a viver longe da me e da Inglaterra.
Moraria num pequeno pas que nem constava, talvez, do mapa.
No ignorava, no entanto, que Klaklov localizava-se na margem norte do mar Egeu, na fronteira com a Macednia, em frente  ilha de Thasos.
Era, sem dvida, um local estratgico para a Rssia, que sempre desejara um porto no mar Egeu para seus navios.
Mas histria e geografia eram uma coisa; casamento, outra.
Ela comeou, ento, a recordar o romance de amor havido entre seus pais.
Sempre sonhara encontrar um homem que amasse e queria conhec-lo bem antes de se tornar sua esposa.
E acabava de ser informada pela rainha que teria de
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viajar para Klaklov.
L se casaria com o rei assim que chegasse. Quanto mais depressa se realizasse essa cerimnia, melhor.
Ficara to atnita que no emitira opinio alguma.
Apenas a rainha fizera uso da palavra.
- Por saber de sua condio financeira - dissera a soberana  princesa -, providenciarei o enxoval de sua filha. Ser meu presente de casamento. E no se esquea 
de que ela precisar partir em duas semanas; por isso, tudo deve ser feito s pressas.
-  muita gentileza... de Vossa Majestade - gaguejara a princesa Beatrice.
Victoria no deu palpite.
Notou que a rainha forava a situao.
Sua Majestade mostrara-se amvel, apesar de tudo. Talvez esse comportamento se devesse  urgncia da medida a ser tomada.
Victoria adivinhava que tudo era uma manobra diplomtica.
A rainha atendia ao pedido no apenas do rei Inged, mas tambm do conde de Rosebery, secretrio de Estado para Assuntos Exteriores.
O conde portara-se muito amavelmente com elas. Fora chamado  sala e a rainha lhe comunicou que a princesa Beatrice e Victoria j haviam sido informadas do casamento.
- A filha da princesa Beatrice vai se casar com o rei Inged - a rainha disse ao secretrio. - E, conforme o desejo dos ministros de Sua Majestade, a noiva seguir 
para Klaklov em duas semanas.
O conde de Rosebery, aps fazer uma reverncia respeitosa  rainha, deu parabns efusivos e sinceros a Victoria.
Ele estava encantado e aliviado ao mesmo tempo com o desenrolar dos acontecimentos.
Ningum pediu a opinio de Victoria. Seu consentimento
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foi implcito. Ela no proferiu uma s palavra. E ambas as mulheres foram dispensadas.
O conde de Rosebery levou-as bem depressa ao ptio onde as aguardava a carruagem.
E, apenas naquele instante, enquanto era conduzida  casa, Victoria teve a impresso de que seu crebro comeava a funcionar de novo. Pensava com mais clareza.
- Deve haver uma razo para tanta pressa - ela disse finalmente  me.
- Voc ouviu o que Sua Majestade falou, minha filha. H grande tenso nos Balcs, e os ministros do rei querem uma rainha inglesa, que proteger o pas contra a 
desagradvel interferncia dos vizinhos.
- Os russos! - sussurrou Victoria.
- Temos de correr com seu enxoval. Contudo, em se tratando de um pedido da rainha, que vai pagar as contas, os costureiros da corte trabalharo horas extras, com 
certeza.
A princesa fez uma pausa e prosseguiu, num tom de voz diferente:
- Oh, querida, vai ser to maravilhoso voc ter roupas bonitas, feitas pelos melhores costureiros de Londres, em vez das que eu fao!
Porm, a filha nem a ouvia.
Refletia no pouco que se falara sobre o prprio rei. No tinha ideia se era velho ou moo, nem dos antecedentes dele.
De sbito, lembrou-se da pessoa que poderia lhe dar alguma elucidao.
Resolveu visitar o velho diplomata na primeira oportunidade surgida.
Quanto  princesa Beatrice, no cabia em si de contente por ter, enfim, recebido alguma ateno da rainha. Por incrvel que pudesse parecer, sua filha seria uma 
rainha muito em breve.
Aps chegarem em casa, Victoria ps-se a imaginar que
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a visita ao castelo de Windsor havia sido uma fico.
Era possvel que tudo tivesse acontecido em to pouco tempo?
Depois, passou-lhe pela cabea que a rainha poderia ter sido mais corts convidando-as para almoar.
J era um pouco tarde para elas comerem a modesta refeio diria servida no alojamento; por isso, a princesa Beatrice foi logo  cozinha a fim de preparar o almoo.
Victoria subiu para seu quarto.
No pequeno cmodo estavam seus livros favoritos, em estantes ao longo das paredes.
Havia ali vrios enfeites que ela ia colecionando no decorrer dos anos.
E os deixaria abandonados naquele refgio que sempre fora s seu.
Trocaria tudo por um reino desconhecido, do qual nunca ouvira falar.
Embaixo, a me esperava-a com o almoo na mesa.
- Acho interessante - disse a princesa assim que ela entrou na sala - irmos a Londres hoje mesmo. No temos tempo a perder! No sei se voc escutou o conde de Rosebery 
explicar, ao sairmos do castelo, que uma carruagem estaria a nossa disposio durante as duas prximas semanas.
Victoria encarou a me, cheia de surpresa.
- Uma... carruagem? - repetiu ela. A princesa sorriu.
- Mal pude acreditar no que ouvia e, naturalmente, aceitei a oferta com prazer. No seria possvel executarmos tudo sem um meio de transporte conveniente.
Victoria reconheceu que a me tinha razo.
Mas sentia-se carregada pelas ondas de um mar revolto.
No dia seguinte no puderam ir a Londres por causa da visita do conde de Rosebery,  tarde.
Pela manh, Victoria foi procurar seu amigo, o diplomata.
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Ele ficou, como sempre, encantado ao v-la. Esperei-a ontem - declarou.
- Eu sei, mas tivemos de ir ao castelo de Windsor por ordem da rainha.
O velho sacudiu a cabea e comentou:
- Ouvi falar do caso. Todos aqui esto curiosos em saber por que Sua Majestade as chamou to inesperadamente.
Ela no ignorava que a presena da carruagem real a sua porta despertara curiosidade nos habitantes do abrigo. No se falava, na verdade, de outra coisa.
- Suponho que Sua Majestade tenha encontrado um trono para voc! - o diplomata tornou a falar, antes que Victoria se explicasse.
Ela fito-o, estarrecida.
- Como soube?
Ele sacudiu os ombros e fez um gesto expressivo com a mo.
- Imaginei - disse ele. - H poucas princesas em disponibilidade, em cujas cabeas a rainha pode colocar uma coroa.
Victoria riu muito.
- O senhor tem razo. E eu vim lhe pedir que me conte tudo que sabe sobre Klaklov.
O velho diplomata surpreendeu-se.
- Klaklov? - exclamou. - Vai se casar com o rei de Klaklov?
Ela fez um aceno afirmativo com a cabea.
- Nunca me passou pela mente que seria ele! - sussurrou o velho diplomata. - Mas, naturalmente, agora entendo que o minsculo reino possa ser um bocado bem apetitoso 
para a guia russa!
Victoria sentou-se numa cadeira mais perto dele e suplicou:
- Fale-me tudo o que sabe sobre o rei.
- Confesso, Tria, que Klaklov  um dos poucos lugares onde nunca estive. E, para ser honesto, no sei nada
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referente ao rei.
- Como pode me desapontar dessa maneira? - lamentou ela. - Confiava no senhor para me dar todas as informaes do pas e do homem com quem sou... forada a me casar.
O modo como Victoria pronunciou a palavra "forada" fez o diplomata fit-la com espanto.
- No quer se casar com ele? - indagou.
- Claro que no! Como pode uma mulher se casar com um homem que nunca viu na vida e que deseja uma esposa s porque ela lhe ser entregue envolvida na bandeira inglesa?
O diplomata achou graa no comentrio.
- Minha pobre menina, esse  o tributo que deve pagar por pertencer  nobreza. E, embora lhe parea difcil, tem suas compensaes.
- E quais so elas, posso saber? - perguntou descrente.
O velho diplomata desviou o olhar, fixando-o na vista da janela.
- Voc  jovem e muito bonita. Muitas vezes me preocupei com seu futuro por viver aqui. A maioria dos moradores, como sabe, vem a este local para esperar a morte.
Victoria acariciou o brao do diplomata.
- Vivo muito feliz no abrigo - comentou ela. - Sempre tive grande prazer em visit-lo.
- Essa  a melhor coisa que ouvi nestes ltimos anos.
- Ele sorriu. - Mas, querida menina, h muitos fatos importantes acontecendo pelo mundo l fora, no mundo a que voc devia pertencer, e no a este humilde cemitrio!
Aps uma pausa, ela sussurrou:
- Estou... assustada!
- Claro que est, mas a vida, boa ou m, ser sempre emocionante para voc, moa inteligente e bonita. No apenas sobreviver a tudo, Tria, mas far de sua vida 
o que desejar, garanto.
- Como pode estar... to seguro... disso? - interrogou
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Victoria.
Sei que  corajosa e  a coragem que transforma as
tragdias em aventuras!
- Mas... suponhamos que meu... casamento resulte num desastre. E da?
- No h razo para que seja um desastre. Porm, se for, voc sobreviver! E lembre-se, pode sempre escapar de qualquer situao, por mais escabrosa que se apresente, 
se tiver inteligncia e se seguir seu corao e sua alma.
- E fitou-a afetuosamente antes de continuar: -  muito linda, minha filha, e sempre haver homens lutando a seu lado, e que a protegero. Embora o que tenha a fazer 
no momento lhe parea assustador, , posso lhe afirmar, muito melhor que ficar aqui, esbanjando sua beleza e talento com velhos... como eu.
Ele piscou ao falar, por isso ela riu.
Aps essa troca de palavras, procuraram Klaklov no mapa.
Apesar de o diplomata no ter condies de lhe contar muito sobre o pas, conhecia a Grcia e a Macednia.
Possua tambm bom conhecimento da lngua falada em Klaklov.
Prometeu dar-lhe algumas aulas sobre esse idioma, o que tornaria tudo mais fcil para ela ao chegar num pas desconhecido.
Quando Victoria o deixou, no se sentia mais to apavorada como antes.
A princesa Beatrice conversou com a filha sobre as toaletes para a viagem.
Fez uma lista de tudo que precisavam comprar quando fossem a Londres no dia seguinte.
s duas e meia em ponto o conde de Rosebery chegou, acompanhado de um ministro de Klaklov, homem de meiaidade que representava o primeiro-ministro.
Gozava de considervel importncia em seu pas.
Ele fora incumbido de pedir  rainha Victoria uma assistncia a Klaklov, providenciando uma rainha inglesa para
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o trono.
E o homem parecia radiante com o bom resultado de sua incumbncia.
Victoria tinha a sensao de que ele a examinava como um comprador de cavalos apreciava sua prxima aquisio.
Depois, o ministro fez uma longa palestra afirmando-lhe que seria bem recebida em Klaklov.
Mostrava-se ansioso por agrad-la.
Todavia, entre os dois homens, Victoria preferiria o conde de Rosebery, por companhia.
Alis, o velho diplomata j havia feito muitos elogios ao conde de Rosebery em suas conversas com ela. Dissera-lhe que o conde era um intelectual de renome, milionrio, 
e um ministro fora do comum.
Victoria ouvira com muito interesse o que ele dissera sobre o conde.
Em contrapartida, o ministro de Klaklov agia tal qual uma marionete, sem vontade prpria.
- Sua Excelncia - comunicou o conde  princesa Beatrice, referindo-se ao ministro - tem tudo planejado para a viagem. Vossa Alteza e sua filha devem seguir num 
vago especial, ligado ao trem expresso para Npoles. Ele sorriu e continuou: - Em Npoles, encontraro um navio de Klaklov que as levar, pelo Mediterrneo e depois 
pelo mar Egeu, at o destino. Ser uma viagem muito mais interessante do que se fosse feita, toda ela, por trem.
A princesa Beatrice sorriu, agradecendo a considerao. E o conde disse mais:
- Sua Excelncia o ministro as acompanhar,  claro, e a baronesa         Liocada ser a dama de honra da princesa Victoria. Uma criada de quarto e um ajudante-de-ordens 
faro parte da comitiva.
- E muita amabilidade! - replicou a princesa Beatrice.
- Afiano-lhe - insistiu o conde - que tudo se far para que a viagem seja confortvel, a fim de que ambas
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cheguem a Klaklov sem estafa.
"Ele est nos dispensando muita considerao", admitiu Victoria.
Quando, finalmente, ela teve chance de falar, perguntou:
- Pode me dizer alguma coisa sobre o rei? Houve alguns segundos de silncio. O conde de Rosebery refletiu, antes de responder. Por fim, disse:
- Peo-lhe desculpas, princesa Victoria, por no ter conosco um retrato do rei Inged. Sua Excelncia o ministro no trouxe nenhum consigo. Porm, quando o conheci 
anos atrs, achei-o um homem atraente.
- Que idade... tem ele? - ela perguntou.
A princesa Beatrice encarou a filha com ar preocupado.
Mais uma vez, o conde de Rosebery hesitou em responder, olhando para o ministro como a lhe pedir auxlio.
O ministro, num ingls com sotaque estrangeiro, respondeu:
- Sua Majestade  um homem de meia-idade. Mas tem um corao jovem e garanto, princesa, que Vossa Alteza achar o palcio muito bonito, especialmente os jardins.
Ele comeou ento a descrever o palcio, as telas preciosas, as esttuas gregas, e as vistas magnficas que podiam ser apreciadas das janelas.
Quando terminou de falar, o conde de Rosebery e ele prepararam-se para voltar a Londres.
O conde insistiu com a princesa Beatrice para que no titubeasse em pedir o que fosse necessrio: seria atendida com a mxima presteza.
Terminou, dizendo:
- Sua Majestade comentou, aps sua sada do castelo de Windsor, que tivera grande prazer com sua visita, e que se encantara com a jovem princesa.
Ele levantou-se e tomou a direo da porta. Victoria tinha outras perguntas a fazer ao ministro de Klaklov, mas no teve oportunidade. To logo as visitas se retiraram, 
ela disse  me:
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- Ambos foram muito reticentes quanto ao rei! - Ser que ele  anormal, ou to velho que vive numa cadeira de rodas?
A princesa Beatrice deu uma exclamao de horror:
- Por que h de ser voc to trgica, Tria? Ouviu o ministro dizer que ele  um homem de meia-idade. O que significa que deve ter menos de quarenta anos.
- O ministro no falou isso - ela teimou. - E no entendo por que tanto mistrio acerca do rei.
- Voc imagina coisas, Tria. Embora concorde que queira ver um retrato dele...
- E tambm - interrompeu-a a filha - por que no veio em pessoa pedir  rainha que lhe arranjasse uma esposa? A, ele mesmo escolheria uma a seu gosto.
A princesa Beatrice suspirou.
- Isso me parece razovel! Mas  preciso convir que, recusar um pedido ao rei, seria um insulto, enquanto que recusar a um ministro, apenas uma objeo diplomtica.
A princesa percebeu que a filhano se contentara com a explicao, e abraou-a com carinho.
- Sei que est preocupada, meu amor. Mas aprendi, durante o tempo em que vivi em Leros com seu pai, que essas manobras diplomticas so necessrias. No futuro, voc 
as aceitar normalmente.
- Suponho... que sim. Mas me parece ser um jeito muito complicado de conseguir qualquer coisa.
- Seu futuro marido  um rei. E reis, mesmo que de pequenos pases, consideram-se pessoas sumamente importantes!
- Apesar disso, rastejam diante da rainha Victoria quando querem uma esposa! - ela retorquiu. - Eu imaginava que um rei tivesse bastante iniciativa para encontrar 
uma mulher para si.
- Se continuar falando dessa maneira, nos colocar em dificuldade, Tria! Quando se encontrar novamente com o conde de Rosebery, pea a ele mais detalhes sobre o 
rei Inged e seu pas.
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- Acho bom! At agora no sei nada nem dele nem de Klaklov!
Victoria no esperou pela resposta da me. Ps o chapu e foi  casa do diplomata para lhe contar o que ocorrera.
Os dias passavam rapidamente enquanto Victoria e a me ocupavam-se com o enxoval.
Embora Victoria tentasse se convencer de que roupas bonitas no deviam impression-la, no podia deixar de se entusiasmar.
Foi maravilhoso ter a seu servio os costureiros mais exclusivos de Londres, perguntando-lhe se preferia "isto" ou "aquilo".
No era fcil acreditar que tinha a liberdade de escolher qualquer mercadoria, independente do preo.
No houve tempo para obter roupas sob medida, excetuando-se o vestido de noiva e dois outros a serem usados em ocasies mais formais.
E a princesa Beatrice juntamente com a filha percorriam loja por loja.
Victoria tinha um corpo perfeito. Alguns vestidos que experimentava lhe caam bem.
Na maioria das vezes, contudo, precisavam ser ajustados na cintura muito fina.
Pouco a pouco o enxoval crescia.
A um certo momento, a princesa Beatrice teve receio de que a rainha se irritasse com a enormidade da despesa.
- No se preocupe, mame - comentou Victoria. Ela nos disse que comprssemos o que quisssemos nestas duas semanas. Por isso, se desejarmos metade de Bond Street, 
Sua Majestade no tem de que se queixar.
Estaria bem quente em Klaklov quando Victoria l chegasse. Mesmo assim, a princesa Beatrice foi bastante prudente em escolher alguns casacos a serem usados meses 
mais tarde.
- Ao menos o rei no precisar gastar dinheiro comigo por algum tempo - observou Victoria. - E, como no soubemos se ele  dadivoso ou mesquinho, ficarei contente 
se eu no precisar lhe pedir nem ao menos um chapu novo.
- Tudo o que compramos fica lindo em voc, meu amor - declarou a me.
Ela insistia em que a filha usasse cores claras. Consistiam em moldura perfeita para seus cabelos louros e pele transparente.
Muitos dos vestidos eram brancos. O de noiva, de chiffon e cetim, tinha bordados em lantejoulas que brilhavam ao menor movimento.
- Voc parece uma princesa de contos de fada - disse a princesa Beatrice, assim que a filha experimentou o vestido de noiva.
Victoria ficou diante do longo espelho onde se via de corpo inteiro.
Quando tivesse uma tiara de diamantes na cabea, ou talvez uma coroa e um vu esvoaante, se assemelharia a uma gravura sada de um livro de contos de fada.
No entanto, perguntava-se se o homem por detrs de tudo aquilo a faria feliz.
Seria ele o prncipe encantado de seus sonhos?
Sonhara que algum dia se casaria com algum que amasse, sendo correspondida em seu amor.
Viveriam ento felizes para todo o sempre.
Jamais se esquecera do amor e felicidade de seus pais.
Vira como os olhos do pai se iluminavam cada vez que sua me aparecia.
Sempre que ficavam separados, mesmo que por curto tempo, sua me corria para receb-lo na volta a casa.
Emocionava-se como uma jovenzinha recm-casada.
"Assim eu gostaria de me sentir", pensava Victoria. "Mas como  possvel que o rei me ame, se nunca me viu? Talvez, embora no tenham querido me contar, ele ame 
uma mulher de sua nacionalidade, com quem, por razes de Estado, no pode se casar."
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Victoria passava noites em claro, refletindo sobre seu futuro.
Tentava acreditar que o diplomata estava certo ao dizer que, a despeito de qualquer dificuldade que tivesse, sua vida futura seria melhor que ficar em Hampton Court 
Palace com pessoas idosas.
"Ele deve ter razo", disse a si mesma.
Sua me deliciava-se ao pensar que a filha viria a ser uma rainha.
Contudo, preocupava-se tambm com a situao.
Temia que o rei aceitasse Victoria no como esposa, mas meramente como uma protetora contra seus inimigos polticos.
"Quero ser amada", Victoria repetia em pensamento na escurido da noite, em seu pequeno quarto. "Oh, meu Deus, por favor... no importa o que mais possa eu encontrar 
em Klaklov, mas faa com que eu encontre o amor".
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CAPTULO II
Enquanto o trem expresso atravessava a Frana velozmente, Victoria julgava estar sonhando.
Nada lhe parecera real desde o dia de sua visita ao castelo de Windsor. Porm, dois dias antes da viagem, o sonho se transformou num pesadelo.
A princesa Beatrice acabara de fechar uma das malas contendo chapus e disse com satisfao:
- Tudo est pronto. Mas penso, querida, que quando chegar a Klaklov, imaginaro que voc comprou toda Bond Street.
- E  quase verdade, mame.
A princesa ergueu do cho a pesada mala dos chapus. Soltou um grito de dor, e Victoria fitou-a, assustada.
- Que foi, " mame?
- Minhas costas - sussurrou a princesa, sentando-se na beira da cama.
Estava muito plida, prestes a desmaiar.
- Que houve? Machucou-se? - insistia Victoria.
- No sei, mas minhas costas doem muito.
Temerosa do que acontecera, Victoria pediu ao cocheiro da carruagem, que felizmente ainda estava no ptio, que fosse buscar o mdico da rainha, sir James Reid, em 
Windsor.
Depois, ajudou a me a se deitar, apesar dos protestos dela.
-  o que precisa fazer, mame - ordenou Victoria. E estava certa.
Quando sir James Reid chegou, fez seu diagnstico. A
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princesa Beatrice tinha uma hrnia de disco.
Sozinha com ele, Victoria perguntou o que isso significava.
- Em linguagem simples - replicou sir James -,  o seguinte: todos ns temos um material tenro entre cada vrtebra da espinha. Se essa camada sai do lugar, a pessoa 
sofre dor violenta, at que tudo volte ao normal.
Victoria olhou-o apreensiva.
- Quanto tempo leva isso, doutor?
- Sinto muito lhe dizer que Sua Alteza Real ter de ficar de cama por seis semanas, pelo menos.
Ela deu uma exclamao de surpresa, e pediu a sir James:
- Ento, o senhor pode fazer o favor de informar ao conde de Rosebery que no posso deixar mame para ir a Klaklov.
Sir James voltou a Windsor e, por felicidade, encontrou-se com o conde que ia conversar com a rainha acerca de assunto de grande importncia.
Ao saber do ocorrido, o conde foi, assim que pde, a Hampton Court, apesar do avanado da hora.
Victoria conduziu-o logo ao quarto da me, pois sabia da gravidade do caso.
A princesa Beatrice encontrava-se deitada de costas, com a cabea apoiada num travesseiro muito baixo, conforme recomendao do mdico.
Ela tentou sentar-se quando o conde entrou, mas gemeu de dor.
- Por favor, no se mova - ele pediu. - Vim aqui para discutir com Vossa Alteza sobre o assunto da viagem.
- No posso deixar mame sozinha - declarou Victoria, antes que a princesa pudesse responder.
O conde de Rosebery sentou-se numa cadeira ao lado da cama, e comeou a explicar:
- Primeiro preciso lhe dizer como sinto o que lhe aconteceu. Mas Vossa Alteza entender que vai ser impossvel, devido s circunstncias, mudarmos os planos que
fizemos para o casamento que ter lugar em Klaklov, logo que sua filha l chegar.
- Mas j lhe disse - interrompeu-o Victoria - que no posso deixar mame sozinha. No h ningum aqui para cuidar dela, apenas eu.
- Percebo sua preocupao - admitiu o conde -, mas ao mesmo tempo sua me entender que a Histria no pode esperar por causa de problemas individuais. E, indo a 
Klaklov, a senhorita estar acrescentando uma pgina  Histria ou, para falar mais claramente, salvando um pas da runa.
- Voc tem de ir, minha filha - sussurrou a princesa Beatrice.
- O que sugiro  que Vossa Alteza Real venha morar comigo, primeiro em minha casa em Londres, onde ter a melhor assistncia mdica - disse o conde. - Sorriu e continuou: 
- Depois, quando se sentir melhor e puder se locomover, ir a minha casa de campo e apreciar meu jardim, mesmo que seja do terrao ou da janela de seu quarto.
- Sugere mesmo que eu v para sua casa? - indagou a princesa. - Eu no seria nada mais que um peso intil.
- Garanto-lhe, Alteza, que eu terei enorme prazer em receb-la como hspede. Desde que minha esposa morreu, minha irm mais velha faz o papel de anfitri em casa.
Houve um ligeiro tremor na voz do conde ao referir-se  esposa.
Ela morrera h quatro anos, e todos os que conheciam A o conde sabiam como ele achava falta da mulher.
Em algumas semanas suas costas no lhe causaro mais tanta dor - acrescentou ele. - Ao menos, em minha casa, ter com quem falar, e posso lhe afirmar que sua companhia 
me causar grande prazer.
Victoria no sabia o que falar.
Achava maravilhoso a me poder usufruir do luxo das casas do conde.
Ela teria uma pessoa inteligente com quem conversar,
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alm do conforto.
Bastante inteligente, Victoria percebia que, assim como ela era jovem demais em comparao aos moradores do abrigo,  me se aplicava a mesma regra.
A princesa Beatrice tinha apenas trinta e sete anos, sendo ainda muito bonita.
Mas, no queria aceitar a hospitalidade do conde, considerando o fato de no ter condies de retribuir a gentileza. Seu orgulho nesse caso falava mais alto.
No abrigo, os convites limitavam-se a uma xcara de ch, e isso bem espaadamente.
Quanto a Victoria, embora achando o convite do conde maravilhoso, no desejava ir sem a me a Klaklov.
A nica coisa que tornava tolervel a perspectiva da longa e apressada viagem, era saber que a me a acompanharia.
O conde de Rosebery encarava Victoria, ansioso, esperando que ela concordasse com sua sugesto.
E Victoria sabia que ele faria tudo que estivesse em seu poder para impedir que a princesa se sentisse muito s.
Por isso, apesar de ficar mais assustada que antes por ter de se casar com um homem do qual sabia to pouco, exceto que era um rei, concordou com o arranjo.
Alguns minutos mais tarde, parava  porta uma carruagem com o ministro de Klaklov e a baronesa Giocada, dama de honra de Victoria.
O conde de Rosebery providenciou uma grande carruagem com maca na parte traseira, para conduzir a princesa.
A princesa foi transportada do quarto por sir James e uma enfermeira.
Observando-os, Victoria notou que agiam com grande habilidade pois a me pareceu no sofrer nada.
Apenas quando ela j estava confortavelmente instalada no carro, Victoria lhe disse adeus.
Teve dificuldade em conter as lgrimas.
Sabia que a me esperava que ela fosse corajosa e no demonstrasse emoes exageradas diante de estranhos.
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- Adeus querida - despediu-se a princesa. - Deus te abenoe, e cuide-se bem. Pensarei em voc o tempo todo, e rezarei muito.
Victoria abraou a me, mas no conseguiu dizer uma palavra.
A, sob as ordens do conde de Rosebery, a carruagem da princesa Beatrice, com o mdico e a enfermeira, partiu.
 conde tomou a carruagem do ministro de Klaklov, para levar Victoria  estao.
L, ao se despedir, sussurrou:
- Estou no apenas grato, mas orgulhoso de seu procedimento valente em circunstncia to dolorosa como esta. - Ele fez uma pausa e continuou: - A senhorita servir 
 Inglaterra e salvar Klaklov. Confio nisso.
Falava muito baixo, pois no queria ser ouvido pelo ministro.
Victoria respondeu apenas:
- Prometo, milorde, que agirei da melhor maneira possvel.
O conde sorriu e disse:
- Ningum pode fazer mais que isso!
A bagagem dela j havia seguido na frente, aos cuidados do ajudante-de-ordens.
Assim que partiu, escoltada pelo conde de Rosebery, pelo chefe de estao e por dois assistentes, Victoria se deu conta de que se tornara pessoa muito importante.
Certamente tudo fora feito para lhe dar todo o conforto.
At o mar portou-se bem na travessia do Canal, e foi excepcionalmente calmo no famoso Duck Pond. i
Como o conde de Rosebery prometera, havia um vago especial para ela, engatado ao trem expresso, em Calais.
O trem expresso levou-a at a Itlia. Victoria nunca viajara em vago particular. Havia ali no apenas uma sala confortvel, que a rainha ocupava durante suas viagens, 
como tambm trs dor-
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mitrios.
O maior ficou para Victoria que suspeitou ser o usado pela rainha.
Os dois menores foram ocupados pela baronesa e pelo ministro.
A criada de quarto de Victoria dormiu num canto improvisado no vago de bagagens.
E o ajudante-de-ordens acomodou-se em duas poltronas na sala.
O acompanhante de viagem, a criada da baronesa e outro homem cuja posio Victoria desconhecia, seguiram em outro vago.
Desde a sada de Londres ela comeou a analisar a baronesa.
Era uma mulher de mais ou menos cinquenta anos, parecendo de origem grega.
Victoria tinha a impresso de que, ao mesmo tempo em que analisava a baronesa, a baronesa a analisava.
E, supunha, no saberia dizer bem o motivo, que a nobre senhora estava desapontada.
Enfim, no trem, j na sada de Londres, Victoria sentou-se perto dela e disse:
- Espero que me conte algo sobre seu pas e, naturalmente, sobre o rei. No sei nada de ambos.
Houve uma pausa antes de a baronesa replicar com determinao:
- Vossa Alteza Real precisa me falar o que deseja saber.
- Bem, quase tudo. Nunca encontrei uma pessoa que conhecesse Klaklov; mesmo o conde de Rosebery no sabia quase nada de seu pas.
-  pequeno porm muito lindo.
Victoria aguardou um instante, mas a baronesa nada mais disse. Ento, perguntou:
- E o rei?
A baronesa desviou o olhar.
Dava a ideia de que escolhia as palavras com cuidado,
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antes de responder:
- Sua Majestade a rainha Victoria no lhe contou nada a respeito do rei Inged?
Victoria fez um gesto negativo com a cabea, dizendo:
- Sua Majestade disse que no o conhecia, pois o rei Inged nunca foi  Inglaterra.
A baronesa deu um suspiro e observou:
- Todos ns em Klaklov estamos muito ansiosos para que Sua Majestade se case.
- Por qu, madame?
A baronesa por certo no esperava por aquela pergunta, e aps refletir um pouco, respondeu:
- Penso que lhe contaram que Sua Majestade casou-se ainda muito jovem, e enviuvou cedo.
- Ningum me disse isso - comentou Victoria.
- Foi tudo muito triste. Estavam casados h apenas dois anos e no tiveram filhos.
- Por que razo o rei no se casou novamente? - ela quis saber.
- No tenho a mnima ideia. Todos em Klaklov espervamos que ele fizesse isso. Mas, naturalmente,  de grande vantagem para nosso pas que sua esposa seja uma parent 
da grande rainha da Inglaterra.
- Minha me  inglesa - explicou Victoria - porm meu pai era um prncipe grego. Considero-me mais uma princesa grega que inglesa.
A baronesa soltou uma exclamao de horror.
- No! Claro que no!  absolutamente essencial que Sua Majestade o rei Inged tenha como esposa uma inglesa. Foi o que Sua Excelncia o ministro pediu, e o que a 
rainha Victoria arranjou.
A baronesa mostrava-se to positiva que ela achou intil revidar.
No podia deixar de admitir, contudo, que seu pai ficaria muito aborrecido se ouvisse aquela observao. Mais uma vez a rainha Victoria o punha de lado. "Enfim, 
que importncia tem tudo isso agora? "
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perguntava-se.
Desde que ela obedecesse  vontade da rainha, e desde que o povo de Klaklov ficasse feliz, palavras no fariam nenhuma diferena na presente situao.
De sbito, a baronesa tornou-se confidencial.
- Acho que Vossa Alteza Real  jovem demais. Perdoeme por dizer isso, mas espervamos em Klaklov que a rainha Victoria encontrasse para ns uma pessoa mais velha, 
que introduzisse grandes reformas em nosso pequeno pas, e que convencesse o povo da necessidade delas.
Victoria fitava-a intrigada.
- Que tipo de reformas? - indagou. A baronesa desviou o olhar e comentou:
- Oh, coisas concernentes ao pas como um todo. E, claro, precisamos de uma rainha que preserve nossos padres morais.
Victoria acreditou que talvez os habitantes de Klaklov se ressentissem do fato de uma estrangeira interferir no modo de vida deles.
Mas achou melhor no comentar nada sobre o assunto.
Continuou fazendo perguntas que a baronesa respondia de modo muito evasivo.
- Uma coisa  de importncia vital - disse Victoria finalmente. -  que eu no cometa erros. Espero portanto, baronesa, que me ajude a agir com acerto, e a no fazer 
nada que v contra os costumes de seu pas.
- Farei o possvel, Vossa Alteza Real - replicou a baronesa. - Mas no  fcil a uma simples mulher impor suas ideias.
Por querer apreciar a vista, embora estivesse ficando escuro, Victoria afastou-se dela.
Pensava que, se tivesse de ter uma dama de honra, preferia que fosse mais jovem.
E, por certo, algum que no estivesse desapontada com ela.
Haveria pessoas em Klaklov que a aprovariam e a ajudariam naquilo que ela achasse certo?
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O conde de Rosebery explicara-lhe, imediatamente aps sua visita ao castelo de Windsor, que a situao era mais difcil do que se supunha.
Isso porque o embaixador britnico, lotado em Klaklov por alguns anos, morrera recentemente.
- Vamos nomear outro bem rpido - dissera o conde. - Nesse meio tempo o pessoal da embaixada estar fazendo o melhor possvel. Mas temo que a senhorita no consiga 
o apoio que teria em diferentes circunstncias.
Victoria passara a informao ao velho diplomata.
- O que o conde de Rosebery quis dizer - declarou ele -  que esto encontrando dificuldades para que o povo se adapte  nova poltica. Leve-se em considerao tambm 
que Klaklov no  um pas muito influente no mundo.
- E fez uma pausa antes de continuar:
- Os jovens membros do corpo consular so ambiciosos, e no desejam enterrar-se nos Balcs.
Victoria sorriu e declarou:
- Entendo perfeitamente o que est dizendo.
- Todos querem ir para Roma, Paris, Madri, Berlim
- acrescentou o diplomata. -  onde existe uma vida mais intensa, tanto do ponto de vista diplomtico como social.
- Gostaria que houvesse em Klaklov algum ingls com quem eu pudesse conversar se sentir solido - sussurrou.
- Assim que se tornar rainha, escreva uma carta ao conde de Rosebery insistindo na necessidade de que seja logo nomeado o novo embaixador.
- E acha que ele dar ateno ao meu pedido? - indagou ela sorrindo.
- Reis e rainhas tm prioridades. Isso  uma coisa que ningum contesta.
Victoria riu muito. Sabia que o conde de Rosebery era muito amvel, mas tambm bastante autoritrio.
No conseguia imagin-lo intimidado por uma carta sua, por mais veemente que fosse.
Era verdade que Victoria percebera, quando a baronesa
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a saudara e os ajudantes-de-ordens lhe puseram a faixa real, que ela j subia o primeiro degrau em direo ao trono.
"O problema todo  quem se sentar a meu lado", disse a si mesma.
Quando a criada de quarto a deixou sozinha na confortvel cabine do trem, Victoria pensava no rei.
Era uma histria para a qual ansiava por um final feliz.
"O rei se apaixonar por mim logo que me vir", acreditava.
E ela chegaria  concluso de que encontrara o homem de seus sonhos.
"Faremos de Klaklov um dos pases mais importantes dos Balcs e todos vo querer nos visitar."
Victoria j estava cansada da viagem quando chegaram a Npoles.
L, embarcaram no navio que os aguardava no porto. Era um pequeno vaso de guerra.
Porm, Victoria notou, assim que subiu a bordo, que o comandante e a tripulao tinham muito orgulho de seu barco.
Fora decorado para receb-la.
Os marinheiros tiraram o gorro e deram salvas de boasvindas  futura rainha.
Isso, ao menos, ela achou comovente.
O comandante cedeu-lhe a melhor cabine, provavelmente usada por ele.
O Mediterrneo, de um azul intenso, estava muito calmo.
O sol brilhava no cu, e o moral de Victoria melhorou to logo saram de Npoles.
Nunca mais estivera num vaso de guerra desde seus oito anos de idade, quando fugira com a me aps o assassinato de seu pai em Ler os.
Por ser a princesa Beatrice de nacionalidade inglesa, a marinha britnica fora em seu socorro e a levara at
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Marselha.
Ela e a filha atravessaram a Frana de trem. Chegando  Inglaterra, a rainha Victoria lhes deu permisso para que morassem no abrigo em Hampton Court.
Victoria amara Leros e, naquele instante, todas as recordaes da Grcia voltaram-lhe  mente.
Ela considerava de bom agouro haver grande quantidade de sangue grego no povo de Klaklov.
Levaram dois dias para chegar ao mar Egeu.
Victoria achou muito bom a me no ter ido com ela. Sentir-se-ia melanclica ao ver Leros outra vez, e ao lembrar-se de como fora feliz ali.
Ser princesa reinante, mesmo de uma pequena ilha, era bem melhor que residir numa casinha num abrigo para velhos.
Como bem dissera o diplomata, s havia l pessoas de bastante idade, muitos  espera da morte.
"Talvez mame encontre algum homem atraente enquanto estiver na casa do conde de Rosebery", pensava.
Para usar de franqueza, ela nunca imaginara antes que a me pudesse se casar de novo.
Mas, naquela eventualidade, outro casamento seria uma soluo bastante feliz.
"Quando mame sarar, vou insistir para que passe alguns dias comigo em Klaklov. Quem sabe encontre um grego parecido com papai! "
Victoria comeou a se entusiasmar  ideia de poder hospedar quem quisesse no palcio.
Afinal de contas, seria bem diverso de contar cada moeda para dar a uma visita uma refeio decente.
Ela ps um de seus mais bonitos vestidos para jantar com o comandante.
Pelo jeito como ele a olhou, percebeu que era admirada. O segundo-tenente tambm fitou-a de modo apreciativo.
Cada noite o barco ancorava numa silenciosa baa, para
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que o barulho das mquinas e o balano do navio no perturbassem seu sono. No terceiro dia, o comandante lhe disse:
- Amanh, chegaremos a Klaklov ao meio-dia, Vossa Alteza Real.
- To depressa? - indagou Victoria, sem refletir na impropriedade de sua pergunta.
- E seguimos lentamente - explicou o comandante.
- Quis que Vossa Alteza Real apreciasse a viagem. Um vaso de guerra pode desenvolver velocidade muito maior, mas no  agradvel em especial quando o mar est revolto.
- Adorei cada minuto! - exclamou, e percebeu que agradava o comandante com seu comentrio.
Ela acordou cedo na manh seguinte.
Hesitou um pouco antes de decidir que vestido usar. Sua criada de quarto, uma mulher simptica de mais ou menos trinta anos, ajudou-a na escolha.
A princesa Beatrice havia posto bem  mo, numa das malas, dois vestidos adequados para o desembarque; um muito leve para o caso de o tempo estar quente.
E Victoria vestiu esse, o mais bonito dos dois.
Ficou parecida com um lindo boto de rosa.
Notou, quando foi ao convs, que os marinheiros a olhavam com admirao.
Esperava que o rei tambm a achasse bonita.
O barco manobrava devagar no porto festivamente decorado.
A bandeira inglesa estava desfraldada junto  bandeira de Klaklov. Victoria viu, um pouco adiante, aportado no cais, um pequeno barco cargueiro.
De dentro dele saiu um homem alto, inegavelmente de nacionalidade inglesa.
O viajante sobressaa entre os outros homens, bem mais baixos, morenos e com o aspecto de gregos.
O ingls dava ordens para que sua bagagem fosse levada a terra.
O vaso de guerra aproximava-se cada vez mais do cais
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onde uma multido o aguardava.
Victoria sentiu-se feliz ao constatar que havia ao menos uma pessoa pertencente ao mesmo pas que o seu, em Klaklov.
Virou-se para o ajudante-de-ordens a seu lado e perguntou:
- Quem  aquele homem que acaba de desembarcar?  ingls, no?
- Acho que sim, Alteza. Mas vou descobrir quem  ele. O ajudante-de-ordens afastou-se e Victoria acenava para
a multido no cais, todos de olhos voltados para ela.
Entre essas pessoas devia estar o prefeito da cidade, vestido a rigor.
Ele faria, Victoria pensou, um discurso de boas-vindas. Apenas esperava que pudesse entend-lo, ao menos um pouco.
Uma banda executava uma msica festiva, e to logo a prancha de desembarque foi baixada, o povo aclamoua com entusiasmo.
Victoria acenava com a mo, sem parar.
Ento, no momento em que o ministro de Estado dirigiu-se a ela, para escolt-la ao cais, o ajudante-de-ordens disse-lhe:
- Descobri quem  o cavalheiro, Alteza.  o sr. Terence Cliff, ingls, que vai hospedar-se na casa de outro ingls, ao lado da embaixada britnica.
- Obrigado - agradeceu Victoria.
Ela se considerou infantil, mas alegrou-se por haver ingleses em Klaklov.
O sr. Cliff entrava numa carruagem aberta.
Enquanto o carro partia, Victoria ficou curiosa em saber se ele tambm perguntara quem era ela.
Porm disse a si mesma que o cavalheiro no parecia nada interessado nela nem no navio de guerra.
Nesse instante, o ministro a fez descer pela prancha de desembarque.
A baronesa caminhou atrs dela e, mais atrs, seguiam
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os dois ajudantes-de-ordens.
"Agora comeo a ser rainha", pensou Victoria.
Os aplausos terminavam; ela acertara ao supor que haveria um discurso.
Foi longo e um tanto quanto solene; mas Victoria sentiu que o prefeito a recebia calorosamente.
Quando a multido acabou de bater palmas, ela foi conduzida a uma carruagem elegante, puxada por quatro cavalos brancos.
As ruas estavam repletas de gente.
A carruagem ia bem devagar para que todos pudessem ver a futura rainha.
Ela sentava-se sozinha no banco traseiro do carro, a baronesa e o ministro no assento oposto.
Victoria acenava para um lado e para o outro, rezando para que a populao gostasse de sua aparncia.
A cidade era muito bonita.
Havia rvores floridas em ambos os lados das ruas.
As casas, de estilo tipicamente balcnico, eram atraentes, em especial as decoradas para a ocasio.
Victoria esperava que, aquilo que via no momento, no fosse apenas a melhor parte da cidade.
Ouvira falar do sofrimento dos povos dos Balcs, das atrocidades cometidas pelos turcos e dos problemas causados pelos russos.
Mas no tencionava aceitar nada sem ter provas da veracidade dos fatos.
Talvez Klaklov fosse diferente...
J estava cansada de saudar as pessoas quando enxergou, enfim, o palcio.
Ficava num nvel mais elevado, a meio caminho de uma colina.
As rvores floridas davam ao local um ar festivo e impressionante a um s tempo.
Chamaram a ateno dela os portes de ferro batido com ponteiras douradas.
Logo na entrada do parque havia duas fontes que jo-
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gavam suas guas para o cu. E os raios solares, atravessando as gotas d'gua, formavam um arco-ris que descia at a pequena lagoa rodeada de pedra.
Os cavalos subiram a rampa e pararam no sop de um longo lance de escadas que conduzia  porta do palcio.
Os degraus estavam cobertos com uma passadeira vermelha.
Havia lacaios com uniforme de gala dos dois lados da escada.
E soldados fizeram continncia quando a carruagem parou.
A baronesa e o ministro apearam primeiro, depois ajudaram Victoria a descer.
Ela percebeu que os dois esperavam que ela comeasse a subir as escadas.
"Onde estar o rei? " ela se questionava. - "Na entrada do palcio? "
Achava estranho, acima de tudo, ele no ter ido ao cais.
Lembrou-se de que seu pai sempre ia ao porto esperar pelos hspedes importantes.
"Eu devia ter perguntado ao diplomata se o rei estaria a minha espera no momento em que pusesse os ps no solo do pas."
A verdade era que o rei no aparecera ainda, e Victoria subiu as escadas sozinha, bem devagar.
Ela no podia negar, contudo, que o palcio era muito lindo.
Assim que chegou no topo da escada, notou que um grande grupo de pessoas a esperava a fim de recepcion-la.
"Qual desses homens ser o rei?", se perguntou.
De repente, em seguida a um estrondo vibrante de clarins, um homem surgiu.
Sem que lhe dissessem nada, Victoria soube que se tratava do rei.
Era uma presena inconfundvel com magnfica farda e chapu emplumado. Mais alguns passos e Victoria chegou bem perto dele.
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Saudou-o como a me lhe ensinara, e ouviu-o dizer, em ingls:
- Seja bem-vinda ao meu pas, Alteza!
Ela levantou os olhos e viu diante de si um homem muitssimo atraente.
Tinha olhos e cabelos escuros.
Ele inclinou a cabea e beijou-lhe a mo.
Por se sentir intimidada, Victoria lanou-lhe apenas um breve olhar.
Os lbios do rei mal tocaram sua pele e, to depressa como tomou-lhe a mo, ele largou-a.
Antes que Victoria pudesse dizer algo, o rei deu-lhe as costas e voltou para o mesmo lugar de onde viera.
Ela julgou seu dever acompanh-lo. Levou alguns segundos para acostumar-se  semi-escurido do interior do palcio em contraste com o sol l de fora.
Ela e o soberano seguiam um homem com farda de gala, o mestre-de-cerimnias.
O rei no disse uma nica palavra.
Depois de ter andado por algum tempo, Victoria examinou-o mais atentamente.
- Ele tinha o olhar fixo no espao, e possua um perfil bem-feito.
Victoria se perguntava se deveria ou no conversar com ele, pois ignorava o protocolo.
O mestre-de-cerimnias j havia chegado a uma porta dupla que se abria para a sala do trono.
A sala estava repleta de espectadores; as mulheres ricamente vestidas, e os homens fardados.
Sobre uma plataforma, numa extremidade da sala, ficava o trono e, ao lado dele, uma poltrona mais baixa, que Victoria imaginou ser para ela.
Ainda sem falar, o rei subiu os dois degraus e sentou-se no trono.
Aps certa hesitao, ela sentou-se na poltrona ao lado.
Ato contnuo, pessoas em fila comearam a subir na plataforma, a fim de serem apresentadas  futura rainha.
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Uma porta-voz pronunciava pomposamente os nomes de cada um dos convidados, e todos curvavam-se diante do rei e de Sua Alteza Real.
Ela achava esquisito ningum lhe dizer nada; e uma prxima pessoa era logo chamada.
Quase todos os presentes tinham aspecto distinto, mas a maioria era composta de pessoas de idade. Os homens pareciam ter posies importantes na corte e no governo.
Victoria sorria para cada um. Afinal, o que se esperava dela?
Estranhava, sem dvida, o rei continuar imvel em seu trono.
Ele no fazia movimento de espcie alguma. Victoria tinha a impresso de que no ouvia nada.
"Por certo conhece toda essa gente; podia dizer uma palavra ou duas a algum", pensava.
Mas, no estando acostumada a cerimnias da corte, sups ser aquilo tudo normal, correto.
"Em ocasies formais, talvez seja impossvel haver familiaridade."
Porm no duvidava que seu pai se portaria de maneira diferente nas recepes em Leros.
Levou quase uma hora para todos serem apresentados, mesmo andando depressa.
Depois, os convidados acomodaram-se nas poltronas, e os discursos tiveram lugar.
O primeiro-ministro, um senhor de idade, abriu a sesso.
Victoria conseguiu entender um pouco do que ele falava.
Seguiu-se o discurso do ministro que fora busc-la em Londres.
Ele falou em ingls, em seguida repetiu toda sua palestra na lngua do pas.
Referiu-se  amabilidade da rainha Victoria em arranjar uma linda rainha para Klaklov.
O povo da cidade sentia-se muito contente, declarou ele.
Victoria teve vontade de retribuir tanta amabilidade! Mas seria impossvel, sem o domnio do idioma.
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Ela olhava para o rei a fim de ver se ele apreciava as palavras agradveis que lhe eram dirigidas.
Mas o soberano continuava impassvel! Parecia mesmo um monarca, porm um monarca sem alma!
Enquanto todos aplaudiam o discurso do ministro, Victoria inclinou-se para o rei e disse:
- Se vai responder, diga como estou grata pelas lindas coisas que foram ditas sobre mim.
Ela quase gritara, pois o barulho das palmas obrigou-a a isso.
Para seu espanto, ele no se moveu.
Continuava sentado, o olhar perdido no espao, no "nada".
Temendo ter cometido uma gafe, recostou-se de novo na poltrona.
Percebeu que a recepo chegava ao fim. As pessoas que se levantaram para aplaudir o ministro no tornaram a sentar.
Victoria refletia sobre o que fazer, quando o primeiroministro chegou perto dela.
- Tenho certeza - disse ele - de que Vossa Alteza Real gostaria de falar com uma ou outra pessoa, antes que todos se dispersem.
- Sim, claro - replicou Victoria prontamente. - Terei imenso prazer.
Ela levantou-se.
O primeiro-ministro ajudou-a a descer os poucos degraus da plataforma.
Vrias pessoas dirigiram-se a ela e apertaram-lhe a mo.
O general, comandante em chefe das tropas, conversou com ela em ingls, enquanto sua esposa murmurou algumas palavras na lngua do pas.
Felizmente eram expresses simples, e Victoria entendeuas bem.
Hesitante, respondeu no mesmo idioma.
Tanto o general como o primeiro-ministro a fitaram estupefatos.
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- Pode falar nossa lngua? - perguntaram em unssono.
- Muito pouco, mas espero melhorar. Afinal, muitas palavras so similares ao grego.
- timo - declarou o primeiro-ministro. - Garanto que com isso granjear a simpatia completa de nosso povo.
Ele olhou para o general enquanto falava, e os dois homens se entenderam.
Victoria viu um profundo significado oculto nessas poucas palavras.
Virou a cabea a fim de ver se o rei estava por perto, e para verificar se ouvira o que havia sido dito. Para seu espanto, o rei desaparecera. Sumira sem deixar 
vestgio.
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CAPTULO IV
Terminada a recepo, os convidados se retiraram.
Victoria foi levada  enorme sala de banquetes.
Os parentes do rei e os ministros de Estado mais importantes tinham sido convidados para o almoo.
Victoria percebeu, assim que entrou na sala, que o rei no se encontrava ali.
Como se adivinhasse seu pensamento, o primeiro ministro declarou:
- Receio, Alteza, que Sua Majestade no esteja passando muito bem. Espero que no se trate de uma das febres comuns nesta parte do mundo.
- Sinto muito - replicou.
- Arrependeu-se ento por ter julgado o procedimento do rei precipitadamente, quando, na verdade, o soberano sofria de algum mal.
Ela foi conduzida  cabeceira da mesa.
O primeiro-ministro sentou-se a sua direita; e o ministro que a trouxera de Londres a sua esquerda.
O primeiro-ministro falava pouco ingls, mas era fluente em grego.
Ele e Victoria mantiveram uma conversa interessante sobre o pas e seus habitantes.
- Logo que o banquete acabou, os convidados comearam a se retirar.
- Quando enfim havia apenas algumas pessoas, o primeiro-ministro falou!
- Penso, Alteza, se no estiver muito cansada, que deveria dar uma volta pela cidade esta tarde, e talvez visitar a catedral onde a cerimnia de seu casamento ter 
lugar
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amanh.
- Amanh? - exclamou atnita.
Ela sabia que as bodas se realizariam logo aps sua chegada. Mas ningum lhe dissera que seria no dia seguinte. Desejava mais alguns dias para se acostumar com Klaklov, 
antes de se casar com o rei.
- Porm, achou intil criar um problema por causa disso.
Apenas respondeu, depressa:
- Claro que gostaria de passear pela cidade. E quero ver a catedral e os locais mais importantes de Klaklov.
Ela foi para o quarto. Por julgar inconveniente que todos a vissem sempre com a mesma roupa, decidiu se trocar.
- vou dar um passeio pela cidade - disse ela  criada de quarto - e tambm pretendo visitar a catedral.
A empregada no deu resposta imediata, o que causou surpresa a Victoria. Aps algum tempo, a moa recomendou:
- Tome cuidado, Alteza. H muitos desordeiros em Klaklov, no momento.
Por causa da pronncia estranha da criada, Victoria leyvou alguns segundos para entender o que ela dizia. Em seguida, indagou intrigada:
- Est insinuando que pode haver perigo?
A criada ficou sem jeito, considerando-se, talvez, imprudente. E Victoria insistiu:
- Diga a verdade. Prefiro saber o que me aguarda do que me assustar com algo desagradvel e inesperado.
Hesitante, a moa disse:
- As coisas no vo bem aqui h muito tempo. Mas, agora, me parecem piores.
- Que est acontecendo? Que tipo de desordeiros so esses aos quais voc se referiu h pouco? - perguntou.
Ela imaginava que, se houvesse de fato desordens, havia russos por trs do movimento. Contudo, queria saber o que a empregada pensava do
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assunto. A moa fez um gesto com as mos.
- No sei o que est havendo, Alteza. Mas vou tentar descobrir.
- Por favor, faa isso - pediu.
Durante o passeio pela cidade, na companhia do primeiro-ministro, da baronesa Giocada e do ministro de Estado, Victoria sups que pudesse descobrir algo por intermdio 
dele.
- Ouvi dizer - comeou ela - que est havendo um movimento revolucionrio em Klaklov, especialmente aqui na cidade. Sabem o que est causando isso?
O primeiro-ministro fitou-a com expresso consternada, e perguntou:
- Quem falou a Vossa Alteza Real sobre o assunto? Se foi um dos ajudantes-de-ordens, ser severamente punido.
- No foi nenhum deles. - E Victoria resolveu mentir. - Antes de sair da Inglaterra, soube dos problemas que havia por aqui. Mas achei tudo em paz e agradvel na 
minha chegada  cidade.
O primeiro-ministro mostrou-se mais sossegado. Temia que ela dissesse qualquer coisa diferente.
- H sempre problemas de um tipo ou de outro nas cidades - explicou ele, fingindo despreocupao. - Ademais, um casamento real atrai forasteiros de outros pases 
e a ral do nosso.
Ele lanou um olhar ao ministro de Estado. Este riu e acrescentou:
-  verdade. Mas garanto a Vossa Alteza Real que nosso povo a receber com todo o carinho amanh, na cerimnia de casamento.
A carruagem aberta em que passeavam era muito confortvel.
Ela percorreu as ruas principais da cidade, porm chamou pouca ateno.
Foi tudo bem diferente da multido que a aclamou na-
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quela mesma manh.
De vez em quando crianas agitavam a bandeira inglesa e atiravam flores na carruagem real.
Mulheres com xale na cabea, apressadas, no se interessavam muito pela pessoa que percorria as ruas da cidade.
Os homens nem mesmo tiravam o chapu. Encaravam-na agressivamente ou viravam o rosto para outro lado.
Ento, Victoria ps-se a refletir sobre a cena de sua recepo no cais e no trajeto at o palcio.
Havia sido aquilo tudo preparado pelos polticos, ansiosos em obter uma noiva enviada pela rainha?
Em seguida, disse a si mesma que estava sendo ridcula demais.
Imaginava coisas s porque a situao apresentava-se um pouco diferente naquele momento.
Ela passou por diversas ruas ladeadas de casas bem construdas, e por fim chegou  catedral.
Era obviamente velha, e da seita ortodoxa grega, como as igrejas de Ler os que ela conhecera em criana.
As mesmas lamparinas de prata pendiam do teto, em frente do altar, o mesmo cheiro de incenso impregnava o ar.
Os dois ministros orgulhavam-se da catedral de sua cidade.
O padre de barba negra, que os recebeu  porta, mostrou a Victoria os tesouros do templo sagrado.
Havia cones pintados por toda parte, a maioria deles datando de centenas de anos.
O sacerdote explicou a ela a cerimnia do casamento.
Victoria viu logo que sua participao no seria difcil.
Quando terminaram de ver tudo, que interessava  nova soberana, o padre perguntou-lhe se podia abeno-la.
Victoria ajoelhou-se enquanto ele rezava uma longa orao em grego, que a fez lembrar-se de seu tempo de infncia.
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De volta ao palcio, ela agradeceu ao primeiro-ministro por hav-la levado  catedral.
-  linda! - exclamou. - Sei que o dia de meu casamento ser uma data inesquecvel para mim.
- No somente para Vossa Alteza Real - interps o primeiro-ministro -, mas para toda a populao de Klaklov.
Ele falava firmemente, enfatizando sua afirmao.
Mais uma vez Victoria admitiu que a situao era pior do que os ministros queriam confessar.
A rainha Victoria tornara bem claro que o casamento deveria se realizar com a mxima urgncia.
Embora ningum lhe tivesse dito, percebeu que grande nmero de pessoas acreditava que seu casamento libertaria o pas da ameaa sobre a qual receavam falar.
De volta ao palcio, foi servido um ch em honra dela, presidido por uma prima do rei.
Todos os parentes dele haviam vindo para assistir  cerimnia.
Mesmo enquanto tomavam ch, outros membros da famlia chegavam, provenientes das mais distantes reas do pas.
Gostaram muito de Victoria.
Mas ela teve a sensao, como tivera no caso da baronesa, de que esperavam ver uma mulher mais velha; se possvel, uma rplica da rainha Victoria.
"Esto desapontados comigo", pensava, "mas no h nada que eu possa fazer".
Quase ningum sabia falar ingls. Victoria ento esforou-se por falar o idioma de Klaklov e ficou exausta. Desculpou-se logo aps o ch, dizendo que precisava descansar 
antes do jantar.
-  claro que precisa repousar - uma das primas do rei concordou. - Tem de ficar bonita para a festa que organizamos para esta noite. Trouxemos nossos presentes 
e vamos d-los a Inged antes do jantar.
- Vai ser maravilhoso! - exclamou.
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- H presentes para Vossa Alteza tambm. Achamos que vai aprovar nossa escolha.
Victoria foi para o quarto onde a criada a aguardava.
Muito cansada, tirou o vestido e deitou-se. Queria apenas repousar, mas em poucos minutos dormia profundamente.
Acordou na hora de se preparar para o jantar. Alegrou-se por ter vestidos bonitos, e decidiu-se por um que comprara na mesma loja do vestido de noiva. Era azul-plido.
O chiffon que contornava o decote estava salpicado de lantejoulas.
Lantejoulas brilhavam tambm na faixa que contornava a cintura.
Victoria desceu e entrou no enorme salo onde os parentes do rei j se encontravam.
Todos foram unnimes em ach-la linda e elogiaram sua toalete.
Os presentes tinham sido colocados sobre uma mesa.
Porm, mais uma vez, o rei estava ausente.
Por sugesto dos convidados, Victoria comeou a abrir os pacotes destinados a ela.
Havia broches, colares, diamantes e prolas.
Uma velha parenta do rei lhe deu um conjunto de pulseira, colar e tiara cravejados de turquesas e diamantes.
Emocionada, Victoria no sabia como manifestar sua gratido.
- Vai ficar lindo em Vossa Majestade - disse a velha senhora - como ficou lindo em mim quando tinha sua idade.
Ela gaguejava um agradecimento quando o rei entrou.
Estava imponente com seu traje de gala, cheio de condecoraes no bem talhado palet.
Andava devagar, parecendo cansado, e forava um sorriso nos lbios.
Aproximou-se dela.
- Espero que Vossa Majestade esteja melhor -disse
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ela.
O rei encarou-a atnito, como se no entendesse o que Victoria queria dizer. Depois, ele respondeu:
- Seja bem-vinda a Klaklov. Quero que seja muito feliz
aqui!
Ele repetia a mesma coisa que j dissera em sua chegada. Victoria espantou-se.
E, antes que ela pudesse responder, os parentes rodearam o rei. Levaram-no  mesa dos presentes para que ele os abrisse.
Victoria ainda no vira todos os seus, por isso passou a desembrulhar os que faltavam.
Notou, contudo, que o rei no se mexia; os parentes abriam pacote por pacote, pois ele no se mostrava muito interessado em nada.
O jantar foi anunciado e, mais uma vez, movendo-se como um autmato, o soberano ofereceu o brao a Victoria.
Enquanto caminhavam ao longo do corredor, ela tentou iniciar uma conversa.
- Fui  catedral esta tarde. Achei-a linda e o primeiroministro disse que todos na cidade esto muito entusiasmados com nosso casamento.
Silncio. O rei pareceu no ter assimilado coisa alguma do que ela falara.
Contudo, j na porta da sala de banquetes, ele respondeu:
- Sim, sim.  verdade.
O ajudante-de-ordens conduziu o rei para a cabeceira da mesa, aonde havia uma espcie de trono; Victoria sentou-se a sua direita.
O jantar estava excelente. Todos falavam muito, numa quase algazarra; exceto o prprio rei.
Ele comeu pouco mas bebeu champanhe e os demais vinhos servidos.
O primeiro-ministro, mais uma vez ao lado de Victoria, tinha muito a lhe contar.
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Embora quisesse conversar com o rei, no foi possvel dirigir-lhe a palavra quase at o fim do jantar.
A um dado momento, ela percebeu que o ajudante-deordens sussurrava qualquer coisa ao ouvido de Sua Majestade.
Este virou-se ento para ela e perguntou:
- Fez uma boa viagem? O navio era confortvel? As duas sentenas soaram mais como uma afirmao
que uma pergunta, e Victoria replicou:
- Adorei a viagem; foi muito agradvel para mim estar a bordo de um navio novamente. A ltima vez foi quando sa de Leros, aos oito anos de idade.
- Oito - repetiu o rei.
- Minha me e eu fomos  Inglaterra porque, como Vossa Alteza deve saber, meu pai foi assassinado.
- Assassinado! - O rei quase gritou.
- Sim, assassinado - confirmou.
- Assassinado! Quem foi o assassino?
O rei falava to alto que todos os presentes ouviram-no.
Vrias pessoas pararam de conversar e ficaram olhan do para ele.
Foi ento que o mesmo ajudante-de-ordens comeou a sussurrar outra coisa ao ouvido dele.
Aborrecida, ela disse ao primeiro-ministro:
- Temo haver perturbado Sua Majestade falando sobre o assassinato de meu pai.
- A senhora no podia adivinhar - replicou o primeiro-ministro -, mas  que houve um atentado contra a vida de Sua Majestade h poucas semanas.
- Ningum me contou. Por isso ele ficou to nervoso!
- Mas no aconteceu nada com Sua Majestade - explicou o primeiro-ministro. - O homem foi surpreendido pelos soldados da guarda e fugiu. Portanto, muito poucas pessoas 
souberam do ocorrido.
- No deixou de ser um choque para Sua Majestade
- comentou Victoria. - O senhor devia ter me prevenido para que eu no falasse sobre esse assunto.
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O ministro desculpou-se.
Victoria achou melhor no conversar mais com o rei, receando perturb-lo.
E o rei, por sua vez, no fez esforo algum para reatar a conversa.
Findo o jantar, uma parenta do soberano, a de maior destaque e que atuava como anfitri, levantou-se e saiu da sala. As outras mulheres a seguiram, e os homens acompanharam-nas.
"Esse costume  diferente do nosso", pensou Victoria.
- "Na Inglaterra, os homens continuariam  mesa, para saborear o vinho do Porto."
Consternada notou que o rei no se encontrava mais entre eles, no salo.
"Ser por minha culpa que ele sumiu? " - ela se perguntou.
No, talvez estivesse se sentindo mal outra vez, como na recepo.
Vendo o primeiro-ministro sozinho num canto da sala, Victoria foi ao encontro dele e sugeriu:
- Considerando-se que Sua Majestade no se sente bem, no seria melhor adiarmos o casamento at que ele melhore?
- No, no. Claro que no. - O primeiro-ministro mostrou-se horrorizado. - Tudo est preparado. Tudo precisa acontecer conforme planejamos.
- Mas Sua Majestade... - ela continuou a falar.
- Ele estar perfeitamente bem at amanh. J mandei chamar os mdicos da corte que tomaro alguma providncia. Juro, princesa, que no precisa se preocupar.
"Foi bom ele dizer isso", ela pensou. Contudo, no deixou de ficar apreensiva.
Quando todos se recolheram, um pouco mais tarde, ela ainda se preocupava.
Eram apenas nove horas da noite.
A empregada correu para o quarto, surpreendida ao ver a patroa to cedo em seus aposentos.
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- vou agora escrever uma carta para minha me declarou Victoria. - Chamarei voc na hora de me despir.
A criada saudou-a e saiu.
Ela sentou-se  elegante escrivaninha, num canto do quarto.
Ao lado ficava a saleta e, logo adiante, os aposentos do rei.
Victoria pensou em lhe dizer "boa-noite", mas achou prudente permanecer em seu apartamento.
Pegou uma folha de papel timbrado e ia comear a escrever quando ouviu um barulho estranho vindo da janela aberta como um tiro de pistola.
Levantou-se para olhar.
Mas era impossvel enxergar alguma coisa l fora, devido  enorme quantidade de rvores.
"Foi minha imaginao esse tiro de pistola", concluiu ela sentando-se de novo para escrever a carta.
Ainda tentava descrever  me o que acontecera desde sua chegada, quando percebeu como tinha pouco a contar sobre o homem com quem se casaria.
" ridculo eu no ter condies de falar dele", pensou, colocando a caneta na escrivaninha. "Preciso v-lo sozinho antes de nos casarmos."
Todos no palcio como que procuravam separ-los.
Ademais, se o rei estava na verdade doente, seria um absurdo seguir o conselho do primeiro-ministro e casarse no dia seguinte.
Victoria levantou-se e foi at a porta.
Lanou um olhar pelo corredor vazio, constatando que as velas j estavam completamente consumidas.
Os candelabros, de ouro macio, tinham a insgnia do rei.
O quarto dele ficava no fim do corredor.
Naquele instante, Victoria viu um homem saindo desse quarto; um valete, talvez.
Decidida, foi ao encontro dele.
J bem perto, falou devagar, na lngua do pas:
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Por favor, pergunte a Sua Majestade se posso v-lo por alguns minutos. Ou, se ele est muito doente, gostaria de falar com o mdico.
O criado fitou-a estarrecido.
Saudou-a e entrou novamente no quarto de onde sara.
Ela no o seguiu. Esperou no corredor.
Se o rei achasse inconveniente seu pedido, ao menos ela teria conscincia de ter realizado o mximo para ajudlo, no caso de doena.
Se bem que, na realidade, tentava era conhec-lo melhor antes de se tornar sua mulher.
Mais rapidamente do que se esperaria, o criado voltou.
- Pode entrar, Alteza - declarou ele.
Abriu a porta e Victoria entrou num pequeno hall, onde havia um enorme lilstre aceso.
Hesitava. A porta ento se fechou s suas costas; o criado sara.
Uma outra porta se abriu imediatamente e uma mulher apareceu.
Era bonita, de cabelos escuros.
Usava uma roupa estranha, mais parecida com um nglig que com um traje de noite.
Ela encarou Victoria e apresentou-se:
- Sou Arina, e disseram-me que deseja ver o rei. Havia qualquer coisa de insolente no modo como a mulher falava, com um sorriso irnico nos lbios vermelhos.
- Vim ver Sua Majestade, pois soube que ele estava doente - explicou-se.
A mulher deu uma gargalhada.
- Ele est bem agora. V v-lo com seus prprios olhos.
Ela escancarou a porta e deu passagem a Victoria que entrou num quarto enorme, no centro do qual havia uma cama com dossel.
Deitado, no vestindo aparentemente nada alm de um robe de cetim vermelho, achava-se o rei.
Apoiava-se num monte de travesseiros, tendo ao lado
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uma moa, tambm de cabelos escuros, que dormia.
A camisola da jovem estava erguida, deixando-lhe as pernas nuas. Pelo decote, um dos seios estava exposto
Victoria no podia acreditar no que presenciava; apenas fitava o rei e a moa adormecida.
O rei surpreendeu-se de incio, mas depois exclamou
- Ento, veio se unir a ns? timo! Nossa reunio ser mais alegre. Eu disse a voc, Arina, que ela era linda! D lhe algo que a faa ainda mais bonita.
O rei falava com entusiasmo, muito diferente do modo como se dirigira a Victoria antes.
Ele sorria.
Seus olhos, de pupilas dilatadas, brilhavam febris.
Os cabelos estavam em desordem e, quando ele se moveu, Victoria enxergou seu torso nu.
- Inged tem razo - observou Arina dirigindo-se a ela. - Venha e escolha o que for de sua preferncia. Mas. se  uma principiante, o melhor  comearmos com cocana.
No primeiro instante, ela no reconheceu a palavra "cocana", em grego.
Mas depois, quando viu na mesa de tampo de mrmore, junto  parede, vrios potes contendo ps, e apetrechos de prata como cachimbos e minsculas colheres, entendeu 
que lhe ofereciam drogas.
Nunca sonhara que isso pudesse lhe acontecer na vida.
Arina abriu um pequeno envelope que retirou de um recipiente de porcelana chinesa onde havia outros mais.
Victoria deu uma exclamao de horror.
Sentiu que o rei a segurava pela cintura, e a puxava para junto de si.
Ele sara da cama sem que ela tivesse notado.
Por ser um homem alto e ela muito menor, sua cabea mal lhe chegava ao trax. Constrangida, Victoria teve noo da proximidade da nudez do rei.
- Agora vamos nos divertir todos juntos - murmurou ele. - E aqui no precisamos nos preocupar com esses
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polticos antipticos e resmunges.
Puxava Victoria cada vez mais para perto de si enquanto falava.
com um gesto brusco, afastou o tecido que envolvia o decote do vestido dela, e tocou-lhe os seios.
Victoria deu um grito, lutando para se libertar.
Pisou, sem querer, no p nu do soberano. Ele gemeu de dor e soltou-a.
Vendo-se livre, ela saiu do quarto correndo, abriu a porta do corredor e continuou correndo at seu quarto.
Sem olhar para trs, correu como nunca fizera antes na vida.
No quarto bateu a porta com fora, trancou-a e respirou aliviada.
com um soluo, caiu na cama.
S depois de muito tempo conseguiu pensar com clareza.
Rememorando fato por fato, concluiu que aquilo no podia ter acontecido.
O primeiro-ministro e todos os membros responsveis pelo governo deviam saber que o rei era um viciado em drogas.
Mesmo assim, ousaram ir  Inglaterra para pedir  rainha que arranjasse uma esposa para o rei, a fim de proteger Klaklov.
Victoria entendia agora o porqu de tanta dificuldade de obter informaes sobre o rei!
A morte do antigo embaixador, naturalmente facilitara as coisas, pois ele com certeza estava a par da situao, e teria prevenido a rainha.
Pelo visto, o problema era guardado em segredo absoluto do mundo exterior.
Victoria sabia muito pouco sobre drogas.
Mas adivinhava que os criados tinham tomado o mximo. de cuidado em conservar o rei longe das drogas at a hora do jantar.
A estava a explicao para aquela letargia do soberano,
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para aquela dificuldade dele em entender as coisas. Privado da droga, apenas podia olhar para o espao, sem nada ver.
Apenas a droga lhe dava a alegria artificial que demonstrara ao v-la entrar no quarto.
Ela sups que o rei, Arina e a outra moa dormiria profundamente at de manh.
Lembrou-se de que no dia seguinte se casaria com o homem que acabara de toc-la de forma aviltante. Um homem cuja vida fora arruinada pelas drogas, e pelo que nutria 
uma repulsa to forte quanto por serpente venenosa.
Ainda sentia a presso do brao dele em volta de sua cintura, e os dedos procurando-lhe os seios.
Victoria achou-se imunda, e teve vontade de tomar um banho. Porm, nada a faria esquecer o horror do que testemunhara no quarto do rei.
Levantou-se da cama.
Que fazer?
Foi at a janela, desesperada, tentando refletir com lgica.
Chocada com tudo que vira, queria fugir... fugir... Encontrava-se, no obstante, numa armadilha sen sada.
Uma armadilha inteligente preparada pelos estadistas de Klaklov.
Eles desejavam a segurana do pas, e a obteriam por ser ela parenta de uma das monarcas mais poderosas do mundo.
Mas, como mulher, Victoria sentia-se incapaz de se casar com um homem que desprezava.
Um homem que a arrastaria para as profundezas da depravao, onde ele j se encontrava.
Victoria ficou na janela, procurando aspirar o ar puro.
As paredes de sua priso se fechavam irremediavelmente e, em mais um dia, no haveria escapatria possvel.
Ela precisava fugir sem demora. Imediatamente!
Quaisquer que fossem as consequncias, por mais furiosos
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que todos pudessem ficar, tudo era melhor que se casar com o homem de quem acabara de fugir.
Ela parecia ainda ver, a sua frente, a moa seminua na cama, inconsciente pelo efeito das drogas que ingerira.
Compreendia a razo das pupilas dilatadas do rei, e dos olhos brilhantes de Arina.
A cadncia das vozes deles, os corpos excitados, tudo fazia parte do efeito das drogas que haviam tomado.
No havia outra palavra para descrev-los: eram todos pervertidos.
- Preciso fugir - murmurou ofegante.
Reconhecia ser terrivelmente difcil, talvez impossvel, mas qualquer destino era melhor que conviver com o desregramento e a devassido.
Nesse instante, ela teve a impresso de ouvir o velho diplomata de Hampton Court Palace dizer: "Voc precisa ter coragem. Coragem para seguir seu corao e sua alma".
Foi como uma mensagem de Deus em resposta a sua prece.
Victoria abriu o guarda-roupa.
Todos os lindos vestidos que ela e a me haviam comprado em Bond Street l estavam.
Ela escolheu o mais simples deles.
Era bonito, azul-escuro. A princesa Beatrice o considerara indispensvel  viagem.
Uma jaqueta curta o acompanhava.
Victoria trocou-se bem depressa.
Pensou depois no que levar consigo na fuga.
O mais importante era ter dinheiro. Assim pagaria sua Passagem de volta  Inglaterra.
Uma viagem to longa seria por certo bastante cara.
Infelizmente, contudo, possua muito pouco consigo. Ao partir para Klaklov achara que no precisaria de dinheiro, e deixara tudo com a me.
De repente, lembrou-se das jias que recebera naquela tarde.
Tinha tambm presentes de casamento ganhos na
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Inglaterra. Alm de pagar todo seu enxoval, a rainha lhe dera um broche de diamantes na forma de lua crescente. No fora uma gentileza para ela, mas para o povo 
de Klaklov, Victoria pensara com ceticismo.
O conde de Rosebery a presenteara com uma lindssima pulseira.
Havia tambm um outro presente de valor. Era um estojo de esmalte, encimado por uma coroa de diamantes, oferecido pelo primeiro-ministro da Inglaterra, o marqus 
de Salisbury.
Victoria juntou essas trs peas e as ps na bolsa.
Depois viu que os presentes que recebera no jantar haviam sido trazidos para o quarto, e estavam sobre a cmoda.
Hesitou por segundos.
Decidiu, por fim, no levar nada de Klaklov, especialmente coisas dadas pelos parentes do rei.
Eles ficariam horrorizados com seu procedimento quando soubessem que ela partira carregando tudo.
Se bem que eles saberiam a razo da fuga.
- Eles devem ter tido conhecimento o tempo todo de como era o rei. Claro que no ignoravam nada! - disse contrafeita.
No meio das roupas que trouxera de Londres, havia um xale de seda azul.
Fora-lhe dado pela costureira que lhe vendera as toaletes mais caras.
- Vai achar este xale til, Alteza, para p-lo sobre os ombros  noite - ela dissera. -  sempre a mesma coisa nesses pases estrangeiros. Faz calor durante o dia, 
mas,  noite, sopra um vento vindo das montanhas, e esfria na hora do jantar.
Victoria rira, mas agradecera efusivamente.
Naquele momento, ela ps o xale sobre a cama e colocou nele algumas peas de roupa que necessitaria antes de chegar  Inglaterra.
Uma camisola, roupas de baixo de seda e, por ser leve,
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Un vestido de chiffon prprio para a tarde ou a noite.
Ela amarrou as pontas do xale. A trouxa no ficou muito grande nem chamava ateno.
O primeiro e maior problema era como sair do palcio.
Victoria olhou mais uma vez seus vestidos no guarda roupa. A me lhe comprara uma longa capa para noite, de veludo azul-escuro. No tinha gola de pele, pois era 
para ser usada no vero.
Quando a vestiu, achou que escondia bem sua roupa, sendo bastante discreta.
Numa das gavetas encontrou uma charpe de chiffon. Cobriu a cabea com ela.
Imaginou que, se ocultasse a trouxa sob a capa e se esgueirasse pelas paredes, ningum a notaria.
No obstante, ela no estava familiarizada com o palcio, e no podia ficar vagando pelos sales.
Sabia apenas onde ficava a escadaria principal, a que ela subira para ir ao quarto aps o jantar.
Mas devia haver outras escadas que conduziam ao andar trreo, onde no encontrasse lacaios de planto.
Ela apanhou a trouxa e foi para a porta. Destrancou-a e transferiu a chave para o lado de fora. Achava que, trancando o quarto, atrasaria a entrada de pessoas ali. 
Pensariam que estava dormindo.
Recordou-se ento da saleta. Voltou para trancar aquela porta tambm.
com o corao aos pulos, trancou seu quarto e tirou a chave.
Foi p ante p pelo corredor, passando pelo quarto do rei.
Ele com certeza ria dela por no ter querido tomar parte no divertimento daquela noite.
O soberano varreria suas inibies e a obrigaria a usar todas as drogas que estavam na mesa junto  parede.
com um estremecimento ela apressou-se, agradecendo a Deus por no encontrar ningum pelos corredores.
Achou enfim o que procurava.
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Uma escada de servio, mal iluminada, sem passadeiras, que ia dar no trreo.
Desceu-a e encontrou-se numa outra ala do palcio.
No havia ningum  vista.
Ela no levou muito tempo para descobrir a porta que dava para o jardim.
Estava trancada, mas, felizmente, com a chave na fechadura.
Em alguns segundos, ela foi envolta pelo ar puro da noite.
Precisava escapar o mais rpido possvel dos jardins do palcio.
O problema era para onde ir, uma vez nas ruas da cidade.
De sbito, como resposta a sua pergunta ou talvez a sua prece, lembrou-se do ingls que vira ao chegar.
O tal homem que desembarcara no cais enquanto seu navio atracava.
Lembrou-se de que ele se chamava Terence Cliff. Lembrou-se tambm de que o ajudante-de-ordens lhe dissera que o ingls iria hospedar-se numa casa ao lado da embaixada 
britnica.
"vou lhe pedir que me ajude", pensou. Na verdade, ela encontrava membros da embaixada na recepo, mas sabia que eles no a auxiliariam de forma alguma. Era um grupo 
composto de homens idosos, e de dois jovens que no passavam de funcionrios do segundo escalo. Esses dois rapazes no fariam nada que ofendesse a rainha, disso 
Victoria tinha certeza. Eles a forariam a voltar ao palcio, como qualquer estadista ou poltico de Klaklov o faria.
"O ingls  minha nica esperana", disse a si mesma enquanto seguia pelo jardim.
De repente, deu-se conta de que havia sentinelas em todos os portes. Por uma delas precisava passar.
Logo ela chegou a um porto e ficou escondida atrs dos arbustos.
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Duas sentinelas conversavam. O porto era grande e, por ser ainda um pouco cedo, estava aberto.
Ela hesitou.
com coragem, decidiu ir ao encontro das sentinelas, na esperana de que a considerassem uma visita qualquer do palcio. Mas... esperou.
Vrios homens mal trajados aproximavam-se dos guardas.
Pareciam j se conhecerem.
Enquanto os recm-chegados falavam de maneira que Victoria classificou de agressiva, as duas sentinelas ouviam com ateno.
No foi possvel para ela entender o que diziam, pois eram pessoas de pouca cultura. A linguagem deles diferia da usada pelo primeiro-ministro e pelos ministros 
de Estado de Klaklov.
Victoria teve a impresso de que os recm-chegados pediam s sentinelas que fizessem alguma coisa para eles.
O que quer que fosse, no importava muito.
O fato  que discutiam acaloradamente.
Ela percebeu que um lado do porto estava completamente s escuras. A luz da lanterna incidia no outro lado, onde as sentinelas e os homens que conversavam com elas 
formavam um grupo fechado.
Segurando a respirao e rezando para que no fosse vista, saiu de seu esconderijo entre os arbustos.
As vozes dos homens aumentaram de volume, e todos riam, como se algum houvesse contado uma piada.
Enquanto o barulho ecoava no ar, Victoria escapou pelo Porto e foi para a rua.
No fez a bobagem de correr, porm andou depressa.
Naquele instante no estava pensando para onde ia, apenas agradecia a Deus por ter escapulido de sua priso.
Quando se imaginou fora do alcance da vista das sentinelas, que sem dvida no a notaram, tentou refletir com mais clareza.
O primeiro-ministro lhe apontara a embaixada britnica
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a caminho da catedral, o que foi uma grande sorte. Victoria achou que poderia se lembrar do lugar. Seria fcil enxergar de longe o alto edifcio, com o pavilho 
da Gr-Bretanha desfraldado, ou ao menos o mastro da bandeira.
As ruas estavam desertas quela hora, e ela caminha rapidamente.
Tinha medo de chamar ateno de algum homem ou, pior ainda, de batedores de carteiras ou ladres profissionais.
Ningum, contudo, fitou-a uma segunda vez.
Victoria ouvia vozes de arruaceiros, vindas da escurido. Era o equivalente ao que se escutava na Inglaterra nas hospedarias ou bares onde se vendiam bebidas alcolicas.
Ela andava h mais ou menos vinte minutos quando se achou numa praa pela qual passara naquela manh, exactamente no local de onde o primeiro-ministro lhe apontara 
a embaixada britnica.
Sim, l estava ela com algumas janelas iluminadas no ltimo andar.
Victoria parou a fim de orientar-se.
Havia uma casa ao lado da embaixada, imponente, o tipo de manso que na Inglaterra se descreveria como pertencente a um "homem de posses".
Ela olhou para o outro lado.
Para seu alvio, constatou no haver possibilidade de dvida.
Do lado oposto via-se uma construo enorme, talvez um ginsio para esportes ou uma escola.
Ela tornou a olhar para a casa suntuosa.
Passava por um momento crucial.
Se o cavalheiro ingls no lhe oferecesse auxlio, seria bem difcil fugir, uma vez descoberta sua sada do palcio.
Enquanto andava, pedia a seu anjo da guarda que a ajudasse. J tinha em mente a histria que contaria ao ingls, para despertar a compaixo dele e o desejo de ajud-la
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na fuga de Klaklov.
Mesmo que no fosse at a Inglaterra, ao menos ele a levaria at a Grcia.
"Irei a Leros", admitia ela. "Sei que vou encontrar algum para me socorrer, em nome de papai."
De uma coisa, porm, estava segura.
Tornava-se imperativo que ningum suspeitasse, nem por um segundo, que ela era a princesa que fora a Klaklov para casar com o rei.
Se isso acontecesse, seria conduzida de volta ao palcio, e nunca mais teria chance de fugir.
"Ajude-me, papai, ajude-me", ela suplicava, sentindo que o pai a ouvia.
Era quase como se ele estivesse ao lado dela.
Victoria escutou ento o pai dizer-lhe as mesmas palavras do diplomata:
"Coragem! Siga seu corao e sua alma."
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CAPTULO V
O duque de Cannuncliff sentou-se para apreciar os trs quadros, com um sorriso de satisfao nos lbios.
Estava muito grato ao primo. Encontrava-se em Veneza quando recebeu uma carta dele, assim dizendo:
"Meu caro Terence,
Voc ficar surpreendido ao saber de meu novo endereo. Comprei uma casa em Klaklov h seis meses. Tenho muito a lhe contar sobre esse curioso pas.
Logo depois que cheguei aqui, um homem me ofereceu um lindssimo Guardi e, por pedir pelo quadro apenas quinhentas libras, comprei-o para voc.
Ele informou-me que tinha grande quantidade de outras telas  venda, e eu conclu, sem grandes provas contudo, que havia algo de suspeito quanto  procedncia das 
mesmas.
Na verdade, tenho uma ideia, embora possa estar errado, de que isso tem qualquer coisa a ver com o palcio real.
Enfim, o quadro que adquiri para voc  autntico, e sei que o agradar muito.
Sugiro que venha me visitar o mais rpido possvel para ver outras preciosidades aqui neste estranho lugar.
Minha casa est a sua disposio e  muito confortvel.
Ficarei encantado com sua visita.
Seu primo e amigo,
Robert."
Em Veneza, o duque lera a carta com cuidado, e achara extraordinrio que seu primo encontrasse um Guardio em Klaklov, e por preo to baixo.
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Confiava no julgamento do primo e no gosto excepcionalmente refinado dele.
Decidiu, portanto, e sem demora, ir a Klaklov.
O primo Robert sabia muito bem, como toda a famlia, que Terence pusera na cabea restaurar a Galeria de Artes de sua manso em Cannun, e devolver-lhe o antigo esplendor.
Infelizmente os dois duques que precederam Terence no se interessavam por arte.
Gastavam seu dinheiro em cavalos e, a se dar crdito a falatrios, em lindas e dispendiosas mulheres.
O acervo de telas da galeria fora, por isso, dilapidado.
Terence, o atual duque, jamais esperara herdar a manso por ser o filho mais jovem, e sempre tivera fanatismo por arte.
Gastara o pouco dinheiro que possua, pois no era membro importante da famlia, visitando as galerias de arte da Europa.
Ao tomar posse do ttulo, das enormes propriedades e da considervel fortuna, por morte dos irmos mais velhos, seu primeiro pensamento foi que doravante podia comprar 
os quadros que quisesse. E rumou para Veneza com essa finalidade.
Acabara de comprar um lindo Caravaggio quando chegou a carta de seu primo Robert.
Robert Cliff, bem mais velho que Terence, decidira escrever um livro sobre os Balcs.
Ocupava-se disso no momento.
Morara j em vrios pases dos Balcs onde, por causa de suas conexes com a nobreza e charme pessoal, era invariavelmente convidado para os palcios governamentais.
O fato de ele ter comprado uma casa em Klaklov fez o duque concluir que o primo estava na fase final do livro, organizando o material coletado.
Terence queria muito ler o livro assim que estivesse terminado.
Saiu de Veneza em seu iate.
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Ao navegar pela costa da Albnia, achou que seria imprudente aportar na pequena baa de Klaklov no Sereia do Mar.
Era esse o nome do iate, uma nova aquisio da qual tinha muito orgulho. Era, na verdade, espetacular.
Porm, se quisesse comprar os quadros, aos quais o primo se referira a um preo razovel, tinha de chegar em Klaklov no apenas o mais rpido possvel, como sem 
ostentao.
O duque sabia que, assim que o vendedor soubesse de seu iate, o preo dos quadros dobraria ou triplicaria.
Essa era uma das razes pela qual ele geralmente viajava como Terence Cliff, e no como duque de Cannuncliff. Havia muitos Cliff no mundo, afinal. E ningum, nos 
pequenos pases balcnicos, imaginaria que ele fosse qualquer coisa alm do que fingia.
Resolveu, a bordo do Sereia do Mar, contornar o sul da Grcia e navegar pelo mar Egeu. Ancoraria num pequeno porto a leste da Macednia.
Pelo mapa, constatou que existiam alguns rios desaguando em minsculas baas, algumas bem perto de Klaklov. Essa no era a primeira vez, desde que herdara o ttulo, 
que viajava incgnito em seu iate.
O comandante e toda a tripulao no ignoravam que seriam despedidos se revelassem a qualquer pessoa sua verdadeira identidade.
Instrudo para tal, o comandante ancorou num pequeno porto na foz do rio Struma.
Esse rio vinha do norte da Macednia e desaguava a pouca distncia do porto de Klaklov.
L, o duque tomou um barco cargueiro que ia para Klaklov.
Passou mal a noite no barco, mas chegou so e salvo ao destino, logo pela manh.
No teve dificuldade em encontrar a residncia do primo.
Mas descobriu, ao chegar, que Robert no estava em casa e lhe deixara um. bilhete:
78 "No tenho ideia de quando voc vir, e recebi um convite do rei da Sibria para assistir a uma festividade muito especial, e que adicionar passagens interessantes 
em meu livro.
Perdoe-me, portanto, se for um anfitrio ausente Fique  vontade, e prometo que voltarei numa semana ou em dez dias.
O casal que cuida de minha casa  eficiente e a mulher cozinha bem. Os dois falam o grego, por isso garanto que voc conseguir tudo que pedir.
Espero, talvez com otimismo, voltar antes de sua chegada.
Seu primo,
Robert."
O duque pde fazer os empregados da casa, marido e mulher, entenderem exatamente o que desejava.
Eles ajudaram-no a entrar em contato com o homem que vendera o Guardi.
A tela era, na realidade, um magnfico exemplar da obra do grande mestre.
Custara baratssimo.
Como o primo dissera, havia na certa algo suspeito quanto  venda desses quadros.
Para comear, o vendedor escondia-se em sua miservel loja nos fundos de uma casa.
Ele informou ao duque que lhe mostraria os quadros imediatamente, mas na casa do duque, e no na loja.
Preveniu-o para que no contasse a ningum em Klaklov por que motivo estava l.
Ele no devia nem dizer que gostava de quadros.
Tudo isso foi dito em voz muito baixa. Depois, o vendedor, com seu hlito cheirando a alho, apressou a sada do duque da loja.
Prometeu ir  casa dele, ao lado da embaixada britnica, o mais rpido possvel.
O duque considerou toda a transao suspeita.
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Saindo da loja, deu uma volta pela cidade e visitou a catedral.
Soube que um casamento real teria lugar ali no dia seguinte.
Voltou para a casa do primo.
O casal de empregados preparara um excelente almoo, acompanhado de um vinho branco que o primo lhe deixara em cima do aparador.
Terence divagava sobre os quadros quando o homem chegou com dois deles.
Eram magnficos, verdadeiras obras de arte.
Um, A Madonna e o Menino, de Morales. O outro, Apollo e Daphne, de Poussin.
Nenhum dos dois tinha moldura.
O modo como o homem transportara as telas provava por si mesmo a suspeita do duque de que as telas haviam sido roubadas.
Ao mesmo tempo, ele achava impossvel que algum escapasse ileso roubando mercadoria to valiosa.
Num pas assim pequeno, o ladro cairia sob suspeita imediatamente aps a descoberta do roubo.
Mais uma vez o preo pedido foi irrisrio, to baixo que o duque no teve coragem de pechinchar mais do que fez.
Surpreendeu-se quando a reduo sugerida, ainda que pequena, foi logo aceita.
Talvez fosse o preo que o vendedor esperava pelas telas.
Por ser o pas isolado do resto do mundo, vendedor nenhum arriscaria receber ou dar cheques.
Mas o duque trouxera grande quantidade de dinheiro consigo. Pagou a transao  vista, e o homem ficou radiante com o negcio realizado.
- O senhor tem mais telas iguais a essas? - perguntou o duque.
- Tenho, tenho! - Foi a resposta rpida. - H muitos quadros, mas  difcil conseguir mais que dois de cada vez.
O duque franziu a testa, porm no disse nada. E o homem acrescentou:
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- Eu vou tentar! vou tentar trazer alguns quadros para o senhor depois de amanh, e outros mais no fim da semana.
O homem refletia, como se procurasse resolver um problema complicado em sua mente.
O duque esperou, imaginando por que o dono das telas queria se privar delas por preo to ridculo. Enfim, disse:
- Estou interessado em adquirir mais quadros, mas receio no poder ficar em Klaklov por muito tempo. Portanto, quanto mais ligeiro o senhor os trouxer, tanto melhor.
- vou tentar, com certeza vou tentar, siri - exclamou o homem.
E, como se j comeasse a correr atrs dos quadros, ele se foi.
Observando-o da janela, o duque viu que corria rua abaixo.
Ele no queria mesmo perder tempo para atingir sua meta.
"Algo estranho deve estar acontecendo neste pas", pensou o duque.
Disse a si mesmo, depois, que no era de sua conta. Comprara os quadros em boa-f.
Se o dono estava disposto a se desfazer deles por um dcimo do preo, isso era problema pessoal.
Ao duque s interessava que as telas enfeitariam sua Galeria de Arte em Cannun, como jias raras.
Precisava encontrar uma moldura digna para elas.
Os dois empregados providenciaram-lhe tambm um timo jantar.
Terminada a refeio, perguntaram se ele desejava mais alguma coisa.
Percebendo que o casal queria descansar, o duque declarou:
- Tenho tudo de que necessito, obrigado. Chamemme amanh s oito horas, e gostaria de tomar caf s oito e meia.
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O empregado inclinou a cabea para demonstrar que entendera a ordem.
O duque colocou as trs telas sobre o sof, e ficou apreciando-as com enorme prazer.
Victoria ergueu a aldrava da porta de entrada da casa ao lado da embaixada britnica.
Deixou-a cair suavemente, quase no provocando rudo algum.
Envergonhada de sua covardia, ergueu-a novamente e derrubou-a com mais fora.
Dessa vez, o barulho foi bastante alto.
O silncio que se seguiu deixou-a desanimada. Talvez o ingls tivesse sado. Nesse caso, teria de esperar at sua volta.
Porm, aliviada, ouviu passos.
Um segundo depois a porta se abriu e uma mulher apareceu.
Na lngua do pas, Victoria se explicou:
- Por favor, preciso falar com o sr. Terence Cliff. A mulher continuou fitando-a, imvel.
Victoria receou que fosse dizer que ele no estava em casa e que fechasse a porta. Contudo, em vez disso, convidou-a a entrar. com um suspiro de alvio, ela entrou. 
A mulher fechou a porta e apontou-lhe as escadas.
- Pode subir - disse ela.
Victoria no esperou pelo segundo convite.
No topo da escada havia uma porta que ela sups ser a do salo. Lembrava-se de que, em Leros, a maioria das casas grandes possua sales no primeiro andar.
Ela abriu timidamente a porta. De fato, era o salo. Tinha trs janelas na parede oposta  porta.
Victoria no viu logo o homem que procurava; levou algum tempo para not-lo, pois estava sentado.
Tinha as costas para a porta e apreciava alguns quadros colocados no sof diante dele.
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Ela no disse uma palavra.
Aps um momento, como se o silncio o incomodasse, o duque virou a cabea.
Contava ver o empregado ou a mulher dele. Em vez disso, parada  porta, encontrava-se uma das moas mais bonitas que ele j conhecera.
Nos cabelos ela usava um leno de chiffon azul. Vestia uma capa escura, que lhe cobria o corpo da cabea aos ps.
Devagar, Terence levantou-se.
Nesse instante, Victoria recuperou a fala e aproximou-se dele com passos rpidos, nervosa.
- Eu... eu vim aqui porque... preciso de sua ajuda. Por favor... ajude-me! Sei que  ingls como eu, e no h ningum mais a quem eu possa recorrer neste momento 
difcil - ela conseguiu dizer.
- Precisa de auxlio? - interrogou o duque. - Mas, como deve saber, a embaixada britnica fica a ao lado.
- Sim... eu sei. Mas no posso contar com o pessoal de l, por isso vim ao senhor.
Ela falava de maneira to agitada que o duque ficou com muita pena. Retrucou, com voz carinhosa:
- Que tal sentar-se e me dizer o que a perturba? Apontou-lhe uma poltrona ao lado da lareira. Embora fizesse calor durante o dia,  noite soprava em
geral um vento forte que vinha das montanhas, no muito distantes dali.
O criado havia acendido a lareira um pouco antes do jantar, apesar de o duque considerar desnecessrio.
Victoria sentou-se na poltrona e o duque ficou em p, de costas para as chamas.
- Agora, conte-me o que h - pediu ele.
Tinha quase certeza tratar-se de uma questo de dinheiro.
Porm, a moa ali na frente dele no parecia pobre.
Quando ela desabotoou a capa, o duque, com olhos experientes, viu que ela usava um vestido caro.
- Desculpe... por incomod-lo - Victoria comeou.
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- Mas, no conheo ningum na cidade... que seja ingls... e preciso sair do pas... imediatamente!
- Tem medo de me revelar a razo? - indagou o duque.
Ela hesitou.
Preparara sua histria com cuidado, e sabia que tinha de convencer o sr. Cliff de que era verdadeira. Acanhada, afastou o olhar enquanto falava:
- Cheguei apenas hoje... mas encontrei a situao para a qual me comprometi... intolervel. Por isso... devo voltar  Inglaterra.
O duque saiu do lugar onde se achava e foi sentar-se numa poltrona junto dela.
Encarou-a de maneira penetrante, como se quisesse certificar-se de que ela falava mesmo a verdade.
- Estava comprometida? Que tipo de compromisso?
- perguntou ele com calma.
- Pediram-me, ainda em Londres, que viesse para Klaklov a fim de cuidar dos filhos... de uma pessoa importante... e para ensinar ingls a eles.
- Em outras palavras, veio para ser a governanta das crianas - declarou o duque, tentando tornar as coisas bem claras.
- Isso mesmo - concordou. - Porm, ao chegar... descobri que a me dessas crianas abandonara o marido levando os filhos... consigo.
- Ela deixou o marido? - insistiu o duque. - Para sempre?
- No sei... muito bem. Apenas soube que ela o deixara. E o marido agiu de maneira insolente comigo.
Victoria teve dificuldade em usar a palavra "insolente", e o duque perguntou, atnito:
- Quer dizer que ele tomou atitudes ousadas sem nunca a ter visto antes?
- ... ... isso mesmo - anuiu Victoria.
Ela pensava no rei Inged e em como ele tentara tocarlhe os seios.
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Corou.
- No me surpreende que esteja revoltada - admitiu o duque. - Como  o nome desse homem?
Victoria previra essa pergunta, e estava preparada para respond-la:
-  melhor que o senhor no saiba.  pessoa importante e, tenho certeza, perigosa. Pode tentar impedir que eu saia do pas... Afinal, pagou minha passagem para c. 
Tenho de partir... depressa. - Ela fez uma pausa. Depois sussurrou, to baixo que o duque mal pde ouvi-la:
- Mas... no tenho dinheiro.
Era o que ele esperava.
Por segundos, achou que tudo no passava de um modo de lhe extorquir dinheiro; alis, bastante hbil.
Quase como se pudesse ler o pensamento do duque, Victoria acrescentou:
- Quero dizer... no tenho dinheiro disponvel no momento... mas possuo jias que posso lhe dar... Talvez o senhor queira compr-las... de mim. - Ela tirou da bolsa 
o broche de diamantes com que a rainha a presenteara. Entregou-o ao duque, dizendo: - Acho... que isto vale... muito dinheiro. O suficiente... enfim... para me levar 
de volta para casa.
- E onde  sua casa na Inglaterra?
- No campo... no muito longe de Windsor.
- E  para l que quer voltar?
- Naturalmente...
Ela no pde deixar de pensar que, de volta  Inglaterra, Windsor era o ltimo lugar para onde iria.
Se fosse para Hampton Court Palace, a rainha, o conde de Rosebery e o primeiro-ministro insistiriam em que voltasse imediatamente para Klaklov e se casasse com o 
rei Inged.
Eles no se preocupavam com a vida particular dele, nem como uma esposa se adaptaria a isso.
Tratava-se de um casamento poltico, e ela precisava ser rainha, qualquer que fosse o rei.
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"Tenho de me esconder em algum lugar", dizia a si mesma. "Porm, primeiro, tenho de sair daqui." O duque a observava, desvairada, ela implorou:
- Por favor, me ajude... No h ningum mais a quem eu possa pedir auxlio. E tenho de sair daqui... tenho de sair!
Havia pnico naquela splica, e o duque viu terror em seus olhos.
No conhecia atriz, por mais talentosa, que pudesse se expressar daquela maneira, a menos que falasse a verdade.
-  claro que vou ajud-la - replicou ele aps uma pausa. - Mas tem certeza de que  prudente fugir assim, sem uma tentativa de reconciliao?
- No posso... me reconciliar!  impossvel! Como j lhe disse... as crianas de quem eu devia cuidar, no se encontram mais aqui.
- Acha que seria uma boa ideia eu conversar com seu empregador, e lhe dizer que deve se comportar com mais dignidade? - sugeriu o duque.
Victoria emitiu uma exclamao de horror.
- No!... No! Claro que no! Ele no o ouviria... e me foraria a ficar! Prefiro morrer...  um homem desprezvel... bestial!
O duque percebeu que os dedos de Victoria tremiam. Ele levantou-se e disse:
- Posso ver que levou um grande choque. vou lhe dar um pouco de vinho, e depois decidiremos o que  melhor para voc.
Ele foi para perto da mesa no canto da sala onde estava a bandeja com o resto do vinho que bebera no jantar.
Encheu o copo e deu-o a Victoria.
As mos dela ainda tremiam. No tinha vontade de beber, mas, para no desapont-lo, tomou um gole.
- Beba um pouco mais - insistiu ele. - Vai lhe fazer bem.
Ela obedeceu. Era mais fcil, enfim, do que discutir.
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O duque sentou-se, declarando:
- Agora, vamos fazer planos. Voc quer voltar para casa e eu tentarei descobrir que navios chegam a este pequeno porto, com destino  Inglaterra. Mas no julgo conveniente 
que viaje sozinha.
- No haver problemas - observou. Fitando-a, o duque pensou em uma srie de razes para ele no permitir que ela viajasse desacompanhada.
A moa a sua frente era de uma beleza fora do comum, embora estivesse plida devido  agitao do momento.
Apesar de ser inglesa, sem a menor sombra de dvida, pois falava muito bem a lngua, havia algo diferente nela, diferente de qualquer moa inglesa.
Ainda nervosa, Victoria sugeriu:
- Se no for possvel eu ir  Inglaterra por ser muito dispendiosa a viagem... posso ficar com alguns amigos na Grcia.
- Pensava ainda agora que voc devia ter qualquer afinidade com o Olimpo - o duque disse e sorriu.
- Gostaria que fosse verdade. Assim, me esconderia l e ningum me acharia.
- Ento, acha que precisa se esconder? - comentou o duque. - Por que h de ser esse homem to assustador?  claro que, tendo ele se portado de maneira atrevida, 
perceber que voc no deseja ficar em sua casa. E voc tem todo o direito de recusar qualquer coisa sem lhe pedir permisso.
- Ele pagou minha passagem... e algumas despesas em Londres; ficar furioso se eu partir aps haver causado tantos inconvenientes para chegar at aqui.
Mesmo para os ouvidos dela, essa desculpa no pareceu muito convincente. E o duque observou:
- Nesse caso, apenas espero encontrar um navio decente que a deixe em Atenas. Mas talvez leve algum tempo.
- Tempo? - exclamou Victoria. - Eu no posso permanecer em Klaklov! Preciso partir imediatamente!
- Vai ser impossvel! - insistiu o duque. - No obstante, vou investigar.
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- Eu... quero partir esta noite!
O duque sorriu e fez um gesto com as mos.
-  realmente impossvel! A menos que voe como um passarinho.
Victoria ficou silenciosa.
O duque apanhou o broche de diamantes e devolveu-o a ela.
- Ponha isto em sua bolsa. Quando descobrirmos um meio de transporte para a Inglaterra, lhe darei o dinheiro da passagem. Pode me pagar quando puder.
- Oh, obrigada... muito obrigada! - agradeceu. O senhor  muito, muito bondoso, como imaginei mesmo que seria.
- Como pde pensar que eu seria bondoso se nem me conhecia? - indagou ele. - Por sinal, como me encontrou aqui?
- Vi-o enquanto eu passeava pela cidade - mentiu.
- Tive certeza de que era ingls e perguntei seu nome  pessoa que me acompanhava; e essa pessoa me deu seu endereo.
O duque aceitou a explicao e ela pediu a Deus para que, de forma alguma, ele se lembrasse do vaso de guerra que entrara no porto quando desembarcou. Podia t-la 
visto.
Nervosa, pegou o copo de vinho que deixara sobre a mesa e tomou mais um gole.
Nesse instante, ouviu-se um rudo de tiro de pistola. O duque ergueu a cabea e foi at a janela.
- Parece que foi um tiro! - declarou ele.
- Acho que sim! - ela concordou.
No havendo mais disparos, o duque fechou a janela.
- Est ficando tarde - disse. - Por isso, sugiro que passe a noite aqui. Amanh bem cedo, irei ao cais para ver se h algum navio decente que siga para a Grcia 
ou para a Inglaterra.
- Posso... ficar... aqui? - sussurrou Victoria.
- Foi o que eu disse, no? Se ficar fora da vista de
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todos, ningum saber que tenho uma hspede em casa.
- Obrigada! Muito obrigada mesmo! Tenho medo de andar pelas ruas tarde da noite.
- E com razo! Nunca faa isso! - ordenou-lhe o duque. - Agora vamos procurar um quarto para voc.
Victoria tirou a capa e colocou-a no brao. Carregando o xale que continha tudo que possua, seguiu o duque.
Os dois nicos quartos ficavam no fim do corredor; o de hspedes, que o duque ocupava, e o de seu primo.
Ele levou Victoria para este ltimo, muito bem mobilado.
A roupa de cama havia sido trocada, com certeza.
- Durma bem! - disse ele. - Garanto que amanh encontraremos uma soluo para seu problema.
- vou dar graas a Deus por ter visto o senhor na cidade. Logo pensei que, se tivesse dificuldades, o senhor me ajudaria. Assim que eu partir de Klaklov no o incomodarei 
nunca mais.
- Vamos fazer uma coisa de cada vez - comentou o duque. - E a mais difcil  encontrarmos um navio para voc.
Ele levara um candelabro da sala e o depositou sobre a penteadeira.
- Mais alguma coisa? - indagou.
- No, nada. Tenho tudo de que preciso, e obrigada... Obrigada do fundo de meu corao!
O duque sorriu. Retirando-se do quarto, ele fechou a porta.
Victoria juntou as mos em prece e rezou com muito fervor, agradecendo a Deus por tudo.
Ela escapara. At aquele momento, escapara por milagre. Seria um milagre ainda maior o sr. Cliff tir-la do pas.
Victoria dormia profundamente. Foi acordada por uma pancada forte na porta.
Julgou estar em sua casa, e que a me precisava dela.
Mas, assim que sentou na cama, a porta se abriu e o duque entrou, dizendo:
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- Levante-se depressa e vista-se! Temos que partir imediatamente.
- Imediatamente? - ela repetiu.
- H um movimento revolucionrio na cidade - explicou o duque. - Precisamos sair desta casa.
- Que aconteceu? - perguntou.
Mas o duque j tinha ido. Por entender que a ordem era urgente, pulou da cama.
No levou muito tempo para se vestir e s precisou guardar a camisola.
Ao sair do quarto, notou que a porta do outro quarto estava aberta, e concluiu que o duque j havia descido.
E estava correta em sua suposio.
Ouvia a voz dele no hall, falando com o empregado que gesticulava, elevando a voz num crescendo.
Quando a viu, o duque disse:
- Ah, aqui est voc! Coma alguma coisa depressa.  necessrio sair j.
Havia caf, pezinhos e manteiga sobre a mesa da sala de jantar.
Ela bebeu um pouco de caf e perguntou ao duque:
- Diga-me, o que houve?
- Parece que um grande nmero de pessoas na cidade faz objeo ao casamento que teria lugar esta tarde.
- Casamento? - murmurou Victoria.
- Sim. Eles no querem uma rainha inglesa e, j h algum tempo, vm tentando depor o rei - explicou o duque. - Enfim, no  nosso problema, e quanto antes ns sairmos 
da cidade, melhor.
Victoria colocou a xcara na mesa e encarou-o.
- O senhor disse "ns"? O duque sorriu.
- vou com voc. Tenho algo muito precioso que no quero perder para um grupo de camponeses arruaceiros.
Reparou ento que o duque carregava sob o brao um grande rolo. Adivinhou serem as telas que ele admirava no salo, quando ela entrou.
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Victoria vestira a capa antes de descer, e o duque fitoua com olhar crtico.
- Voc est chique demais - opinou ele. - Tire essa capa!
Victoria fez o que lhe foi mandado. O duque manteve uma rpida conversa com o empregado, sendo que a maior parte ela no entendeu.
O empregado foi para a cozinha levando a capa. Voltou trazendo uma muito velha, bem usada, o agasalho tpico das camponesas dos Balcs.
- Ponha isto! - ordenou-lhe o duque. - E tire esse leno da cabea.
Sem discutir, ela obedeceu.
Ele ento tirou do bolso uma charpe, como as que os homens usam em lugar de gravatas, e deu-a a ela.
Victoria a ps na cabea e amarrou-a sob o queixo.
Olhou-se no espelho da sala e concluiu que passaria bem por uma camponesa pobre.
O duque vestia um sobretudo velho tambm, tal qual o dos homens quando vo  pesca.
Era o mesmo, Victoria pensou, que ele usava ao desembarcar do cargueiro, na chegada a Klaklov.
Ele deu dinheiro ao empregado, que sorriu de satisfao; depois o homem abriu a porta da frente, espiou a rua com bastante cuidado, e disse ao duque:
- No vejo ningum. V agora, e v com Deus!
- Precisaremos muito do auxlio d'Ele - replicou o duque.
Os dois saram e Victoria viu que era bem cedo.
A bandeira britnica ainda no fora hasteada, e as ruas estavam desertas.
O sol comeava a surgir, muito plido, e havia luz em algumas janelas das casas.
O duque andava depressa. Victoria achou melhor no conversar e, como as pernas dele eram bem maiores qu as dela, teve de se esforar para acompanh-lo.
O sr. Cliff, pelo visto, conhecia bem o caminho at
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ao porto, ela concluiu.
Passaram por vrias ruas residenciais pouco importantes, contudo, e chegaram na parte mais movimentada da cidade.
Porm l, em vez de pessoas se apressando para ir ao trabalho, como em geral acontecia, havia pequenos grupos de homens conversando, nas esquinas.
Gesticulavam sem parar.
O duque achou bom no chegarem muito perto dessas pessoas e ficarem fora da vista de todos.
Em cada rua tortuosa viam-se homens falando em vez de trabalhar.
Mas no tinham ar agressivo.
Enfim, chegaram ao porto e ela avistou o cais onde desembarcara.
Nem sinal do navio que a trouxera de Npoles a Klaklov, na vspera.
E exceto pelos cargueiros pequenos, ali ancorados, o cais estava deserto.
com o que Victoria classificou de um golpe de gnio,
O duque encontrou logo o funcionrio a cargo do porto. Por estar muito ansiosa, ela nem prestou ateno  longa
conversa mantida entre os dois homens.
Por fim, com voz resignada, o duque disse a ela:
- Venha. H um cargueiro saindo daqui a uma hora, e teremos sorte se a tripulao nos aceitar a bordo.
Conduzidos pelo funcionrio do porto, que adquiriu uma atitude bem mais atenciosa quando o duque lhe deu dinheiro, eles foram at a extremidade do cais.
Viram um barco pequeno, sujo, carregado de madeira e engradados com legumes.
O comandante, de roupa suja e barba por fazer, com certeza nativo de Klaklov, de incio recusou terminantemente levar passageiros.
1 O duque e o funcionrio que o acompanhava discutiram e, afinal, o comandante cedeu.
O duque ofereceu-lhe uma boa quantia em dinheiro. Ele
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aceitou e contou as notas cuidadosamente, para certificar-se de que no estava sendo enganado, A, assim que o encarregado do porto se foi, todo sorrisos com mais 
algumas notas na mo, o comandante disse a eles que subissem a bordo.
Informou-os de que podiam ficar no convs ou em balIco, at que terminassem de carregar o barco. Mas ele no tinha a mnima ideia de quando isso ocorreria. Victoria 
receava ser vista, por isso sugeriu ao duque que ficasssem.
Imaginava que quela hora o pessoal do palcio j estaria dando por falta dela.
Haveria grande agitao e todos procurariam descobrir que lhe acontecera.
- Sinto-me mais segura se me esconder - declarou ela ao duque.
- Como pode saber se algum vir atrs de voc aqui no cais?
- No sei... mas... prefiro descer.
- Muito bem - concordou o duque. - Vamos! Eles desceram por uma escada frgil, seguindo as instrues do comandante.
o barco tinha apenas duas cabines. Uma, a do comandante, suja como o prprio dono. A outra no estava sendo usada, mas havia ali uma enorme mquina, provavelmente 
para ser desembarcada em outro porto.
A cama de madeira tinha um colcho to rasgado e sujo que o cho empoeirado parecia mais limpo.
O cheiro de leo, cebola e sujeira permeava o ar.
Mas, para ela, aquilo era um local de segurana, longe do rei. At o inferno seria prefervel a se tornar esposa de homem to repugnante.
- Em que lugar abominvel viemos parar! - exclamou o duque com sarcasmo. - Mas, de qualquer forma, no queria me misturar com polticos ignorantes de um pas que 
no deseja aceitar uma inglesa como rainha.
- Tem razo...  claro que tem razo - murmurou
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Victoria. - Ao menos ningum nos ver aqui.
O duque colocou o rolo com as telas sobre o leito e a mala no cho.
- Trouxe comigo uma garrafa de vinho e comida, por precauo - observou ele. - Acho que qualquer coisa que nos dem para comer neste navio nos envenenar.
- Sem dvida - concordou rindo. - O senhor foi muito esperto em pensar nisso.
- No posso continuar aqui embaixo - disse o duque depois de alguns minutos. - vou ao convs para ver o que est acontecendo por l.
Victoria deu um grito de aflio.
- No v ao cais, por favor! O navio pode partir sem o senhor.
O duque sorriu.
- Juro a voc que o comandante no far tal coisa. Agora sente-se, se puder encontrar um canto limpo, e lembre-se de que iremos passar muitas horas neste buraco. 
Mas no h nada que possamos fazer para evit-lo.
- No deve falar desse modo de um barco que nos est dando abrigo - protestou.
O duque riu muito.
- Claro, devo ser mais corts para com o barco, e preciso insistir comigo mesmo que isto representa nossa salvao contra a desagradvel tempestade que desaba sobre 
a cidade a perto.
Victoria sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.
A populao da cidade revoltava-se contra a futura rainha inglesa! Mas no tinha ideia de que a mulher em questo j havia escapado do horror e desprezo que sentira 
pelo rei Inged.
Assim que o duque saiu da cabine, Victoria fez uma prece em silncio: "Por favor, meu Deus, no deixe que os habitantes de Klaklov me encontrem. Por favor, permita 
que eu viaje tranquila neste navio, para longe deste pas. Por favor... por favor... meu Deus! "
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CAPITULO VI
Victoria pensou que o navio partisse logo, mas viu que fora muito otimista.
Escutava o barulho do barco sendo carregado e dos homens gritando.
O duque voltou para a cabine. Aps algum tempo, comeou a ficar inquieto.
- Quando acha que vamos zarpar? - indagou ela, preocupada.
Ele abrira a escotilha e olhava para o mar. No havia ondas altas, as guas estavam muito calmas.
- No tenho ideia - replicou ele. - Mas ao menos estamos escondidos do que a aterroriza.
Victoria deu um suspiro.
Sabia que, naquele momento, o palcio estava em polvorosa pelo seu desaparecimento.
Havia sempre a possibilidade de fazerem uma busca nos navios do porto.
Por estar assustada, disse ao duque:
- V descobrir quando vamos partir, por favor.
- Muito bem - respondeu ele. - Mas tranque a porta depois que eu sair e no abra para mais ningum.
A fechadura no era forte, mas ela deu uma volta  chave e logo ouviu os passos do duque subindo a escada.
O tempo se arrastou enquanto ele estava fora, no convs.
Assim que ele voltou, pela expresso de seu rosto, Victoria concluiu que as notcias no eram boas.
- Sinto muito lhe dizer que ainda teremos de aguardar por algum tempo.
- Mas... por qu?
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Os homens esto trazendo o ltimo carregamento s agora, mas o comandante me preveniu que todos ainda vo tomar um trago antes de partir.
- Pensei nisso - admitiu. - A cidade est calma?
- Ouvi alguns disparos - replicou ele. - Porm talvez sejam os cidados celebrando algum evento importante, alguma conquista obtida. O porto est calmo.
Isso no surpreendeu Victoria, pois havia poucas embarcaes no cais.
Por uma hora ou duas reinou silncio absoluto no convs.
Depois, ouviu-se o barulho dos marinheiros chegando a bordo.
Pelo modo como falavam e pelo barulho que faziam, Victoria deduziu que muitos deles estavam bastante "altos".
Para distrair a ateno dela e sosseg-la um pouco, o duque desembrulhou as telas.
- No sei se voc entende alguma coisa sobre arte disse. - Mas gostaria de lhe mostrar o que comprei, que considero um tesouro.
Ele espalhou as telas sobre o leito.
Quando Victoria as olhou, soltou uma exclamao.
- Esta  um Poussin!
O duque encarou-a estupefato.
- Reconhece-a? Onde viu um Poussin antes?
Ela achou arriscado dizer "em Hampton Court Palace", por isso respondeu:
- Vi uma cpia do quadro dele, Recolhendo as Cinzas de Pando, no acervo do duque de Derby.
Ela vislumbrou surpresa na face do duque e acrescentou depressa:
- Minha me interessa-se muito por pintura, e ns falamos frequentemente sobre o assunto.
O duque perguntou-lhe ento:
- Que acha deste quadro de Poussin?
-  lindo! E o artista expressou nele suas profundas
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ideias, no que  famoso.
Victoria parecia apreciar os trs quadros e teceu comentrios elogiosos sobre eles. O duque mal podia crer no que ouvia.
Depois de alguns minutos, chamou-lhe a ateno para o quadro de Morales, dizendo:
- E o que acha deste em especial?
Ela olhou para o lindo quadro de A Madonna e o Menino e achou que nunca tinha visto nada to bonito antes.
Em seguida, percebendo que o duque esperava por uma resposta, comentou:
- Tenho certeza de nunca ter visto nada pintado por este artista, mas acho, embora possa estar enganada, que ele  espanhol.
- Como sabe? - O duque espantava-se com a sensibilidade dela.
- Tenho impresso de que sinto isso - replicou. O que ele pintou  diferente de qualquer outro quadro com motivo religioso.
- Tem razo - concordou o duque. - Morales foi chamado de "O Divino", mesmo em vida. Infelizmente perderam-se muitos de seus trabalhos.
- Conte-me mais sobre ele - pediu Victoria.
- Luiz de Morales nasceu em Badajoz, na Espanha, em 1509. Foi considerado o maior pintor maneirista da Espanha.  lembrado sempre por suas pinturas religiosas, muito 
apreciadas pelo povo espanhol. Diz-se que ele estudou com o pintor flamengo Hernando Sturmio, em Badajoz. Morales trabalhava em painis. A Madonna e o Menino  sua 
obra-prima.
- Que significa pintor maneirista?
- Convencional - explicou o duque.
- E Poussin era francs, no? - indagou Victoria.
- Era. Nicolas Poussin nasceu em Paris em 1594 e foi o mais importante pintor francs do sculo XVII, um lder da pintura clssica do perodo barroco. Sua inspirao 
esttica provinha da arte e filosofia da antiguidade.
O tempo passava depressa enquanto o duque explicava a Victoria o gnio artstico dos trs pintores que imprimiram sua personalidade nos quadros que pintaram.
- Giannantonio Guardi nasceu em Viena em 1699 e morreu em Veneza - prosseguiu o duque. - Especializou-se tambm em pinturas religiosas.
Depois que os marinheiros subiram a bordo houve ainda um atraso at finalmente o navio zarpar.
O duque enrolou as telas e as ps a salvo num canto da cabine.
Aps o duque ter fechado a escotilha, Victoria constatou que o cheiro de p e sujeira piorava, devido  falta de ventilao.
Felizmente havia um pequeno banheiro ao lado da cabine. A pia estava quebrada como tambm os ladrilhos do cho.
Mas, com a gua fria de um balde eles puderam ao menos lavar as mos.
Havendo apenas um beliche, Victoria se perguntava como iriam passar a noite. Adivinhando o pensamento dela, o duque disse:
- Espero que cheguemos onde planejo desembarcar antes da noite. No acho interessante dormir no cho, e o beliche foi feito para uma s pessoa.
Victoria corou.
- Acho que devia oferec-lo ao senhor - sussurrou ela. - Mas este  meu nico vestido, e o cho est muito sujo aqui.
O duque riu.
- Ento, naturalmente, precisa tomar cuidado com seu vestido!
- Tenho uma ideia, se o senhor a considerar razovel.
- Conte-me.
- Se ambos sentarmos no beliche, cobrindo-o antes com minha capa, poderemos descansar ao menos, embora o espao seja um pouco exguo.
Logo, imaginando que ele pudesse julg-la imodesta su-
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gerindo ficarem to prximos um do outro, Victoria corou e disse, com voz trmula:
- Talvez seja errado de minha parte sugerir tal coisa, mas o cho est imundo, e no h cadeiras.
- Acho sua sugesto sensata - admitiu o duque. Sente-se no leito antes e fique bem perto da parede. Eu me sentarei na beirada, lugar fcil para sair caso haja necessidade.
Victoria estava exausta, e fez o que ele mandou.
Espremeu-se junto  parede, sentindo alvio ao esticar as pernas.
o duque sentou-se ao lado dela. E, quando o navio ganhou velocidade e comeou a jogar, Victoria ficou contente por estar perto da parede.
Conversaram por algum tempo.
O duque contou-lhe histrias sobre quadros pelos quais se interessava, e surpreendeu-se com o conhecimento dela acerca de uma variedade de artistas e respectivos 
trabalhos.
Ele nem sonhava que, por ter ela vivido numa casa pequena em Hampton Court Palace, passasse cada momento livre admirando as belezas do palcio propriamente dito, 
e de seus quadros.
Victoria adorava as salas de teto alto, e a me a encorajava a apreciar as telas, principalmente as romnticas.
Ela e a me gastavam horas olhando os quadros e lendo sobre a vida dos artistas, o trabalho e a personalidade deles.
O duque surpreendia-se em encontrar uma mulher linda interessada por arte como ele prprio.
Isso jamais constatara antes.
Mais uma vez atravessou-lhe a mente que talvez Victoria usasse de alguma artimanha, para prend-lo.
Contudo, como saberia ela de sua paixo pela arte at o momento em que lhe mostrou as trs telas recentemente adquiridas?
Ele no ignorava que mesmo um professor experiente
acharia difcil instruir uma pessoa rapidamente com todos aqueles conhecimentos.
Era uma aprendizagem que se desenvolvia e se aprofundava ao longo de anos.
O cargueiro desenvolvia grande velocidade.
Victoria e o duque comeram e beberam o vinho que ele trouxera.
Ao cair da tarde o duque comeou a pensar que talvez fosse impossvel atingir seu iate antes do alvorecer.
O sol se punha e a primeira estrela brilhava no cu quando entraram numa pequena baa.
- Fique aqui - ordenou o duque. - Tentarei descobrir onde estamos.
O que ele quis dizer era: tentarei descobrir onde o Sereia do Mar est.
Ele subiu para o convs e notou imediatamente que no havia sinal do iate no pequeno porto usado por pescadores apenas.
Isso significava que eles teriam de andar pela praia a fim de descobrir onde o iate ancorara. O que s seria possvel durante o dia.
O duque voltou para perto de Victoria.
- Tenho ms notcias - informou ele. - O melhor que podemos fazer  ficarmos aqui na cabine at de madrugada.
- Mesmo?
- No penso que haja um hotel nesta aldeia de pescadores. E, se houver, no sei se seria um lugar decente para voc.
Victoria no o questionou, e o duque prosseguiu:
- Nesse caso, estaremos mais seguros aqui, e menos observados, por mais desagradvel que este barco seja.
- Vamos ficar aqui, se o senhor assim o deseja.
O duque foi falar com o comandante e ficou sabendo que o descarregamento s seria feito ao amanhecer.
O duque pediu ento a um marinheiro que fosse comprar comida e, se possvel, uma garrafa de vinho de
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qualidade regular.
O resultado no foi animador, mas havia comida fresca e queijo de cabra.
To logo terminaram de comer,  luz de uma nica vela, o duque declarou:
- Agora, quero que voc durma. Temos que andar uma boa distncia pela manh, e sugiro que desembarquemos bem cedo para que ningum nos veja.
- E acha que algum prestaria ateno em ns, que algum se interessaria por ns neste lugar?
- Mulheres bonitas e bem vestidas so sempre alvo de ateno, mesmo numa aldeia de pescadores - observou o duque com um sorriso.
Victoria corou ao elogio, e o duque achou-a ainda mais jovem e mais sem artifcios.
- Acomode-se no leito como puder - recomendou ele.
- Depois que eu levar daqui o resto de comida, ambos poderemos tentar dormir um pouco antes de iniciarmos nossa jornada.
O duque saiu da cabine e Victoria tirou a jaqueta. Colocou-a sobre o velho sobretudo do duque que ele estendera no cho.
Ps seus sapatos ao lado da jaqueta e sentou-se no beliche.
Quando o duque voltou, trouxe consigo um almofado rstico que emprestara do comandante.
- Est mais ou menos limpo - comentou ele. - No gosto do aspecto desses travesseiros do beliche.
Victoria riu com gosto.
- Devemos agradecer a Deus pelos pequenos favores que conseguimos.
-  no que eu estava pensando h pouco - concordou o duque.
Ele tirou o palet e os sapatos e sentou-se no leito ao lado dela.
Abriu a escotilha. O ar da noite estava morno; no frio como era de supor.
- Agora, procure dormir - aconselhou-a. - Do contrrio achar a caminhada de amanh exaustiva. Em tal caso, eu a deixarei na estrada!
- No pode ser to cruel! - Victoria sorriu. - E, se o fizer, eu roubarei suas telas e fugirei com elas.
- Sabe que no permitirei que faa isso!
O duque riu muito, sentado no beliche, um tanto quanto cuidadoso para no chegar muito perto de Victoria.
Pensava em sua estranha aventura na qual nenhum de seus amigos acreditaria.
L estava ele, com uma das mulheres mais lindas que j vira, e portando-se como se fosse o pai dela ou o irmo.
Percebia que Victoria, aps a experincia que tivera com o homem que a assustara, seu empregador, tratava-o como se ele tivesse cem anos.
O duque apagou a vela. A luz fraca das estrelas iluminava suavemente o cu.
Ambos ficaram silenciosos e, depois de alguns minutos, Victoria dormia.
Ele podia perceber a respirao suave da moa.
De repente, ela virou a cabea e encostou-a no ombro dele.
Num ato instintivo o duque abraou-a e trouxe-a para bem junto de si.
Victoria estava inconsciente, nem sabia onde se encontrava.
Foi ento que o duque se deu conta do perfume de violetas que ela usava.
No comeo no conseguiu identificar o aroma que dava aos cabelos de Victoria um odor atraente e convidativo.
A princesa Beatrice comprara para a filha um frasco de perfume da mais famosa loja em Jermyn Street, onde o prncipe Philimon, seu marido, lhe comprara o mesmo perfume 
por ser o favorito dela.
"Se eu fosse um artista", pensou o duque, "pintaria um quadro meu e desta moa como estamos agora".
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Victoria acordou sobressaltada e viu que estava sozinha. Teve medo. A porta se abriu logo e o duque entrou na cabine.
Carregava uma bandeja com duas xcaras de caf preto. Colocou-a no cho, ao lado do leito. - Depressa - disse ele. - Garanto que no quero continuar neste lugar 
imundo nem mais um minuto alm do necessrio.
- Mal posso acreditar que dormi to bem! - No h nada mais fatigante que o medo - observou ele. - Mas, como j disse, ande depressa. vou agradecer ao comandante 
e, quando voltar, quero encontr-la pronta para partir. * Ele bebeu o caf num s gole e saiu da cabine.
Victoria levantou-se, vendo que seu lindo vestido estava todo amassado. Mas achou que as rugas sairiam assim que ela comeasse a se movimentar.
Havia um espelho no banheiro, e ela arrumou os cabelos como pde, sabendo no haver tempo para escov-los bem como era seu hbito.
Quando o duque voltou, ela j se achava pronta para sair, faltando apenas vestir a capa velha que trocara pela sua de veludo.
- Preciso mesmo usar isto? - perguntou ela ao duque, mostrando-lhe sua capa que forrara a cama durante a noite.
- Ponha nas costas at chegarmos  aldeia - ordenou o duque. - Meu sobretudo pode ficar aqui, de presente ao prximo ocupante da cabine.
- E ele ficar muito grato, garanto! - Ela sorriu. Em seguida, subiram para o convs. L, havia apenas
dois ou trs marinheiros sonolentos, e nem sinal do comandante.
O duque ajudou-a a descer pela prancha de desembarque e, atravessando a aldeia, chegaram a uma estrada rstica bordejando o mar.
Andavam depressa. Victoria carregava o xale contendo
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os seus pertences, mas tinha dificuldade em acompanhar o passo do duque.
Aps haverem caminhado uma boa distncia, o duque disse:
- Agora pode jogar fora esse horror de capa to til a voc nestas ltimas horas.
Victoria deixou a capa cair dos ombros.
E, como o duque lhe tomasse a dianteira, ela pediu:
- No podamos andar pela praia, sobre a areia? As pedras da estrada esto machucando meus ps.
- Naturalmente! - concordou o duque. - Eu deveria ter pensado nisso antes.
Eles desceram uma pequena rampa que os conduziu  praia.
Victoria sentou-se para tirar os sapatos.
Percebendo que o duque no olhava para ela, mas para o mar, tirou tambm as meias.
Fora uma tola, pensava, por no ter lembrado de pr um par de sapatos mais resistentes em vez das sandlias delicadas.
Na pressa de fugir do rei, pusera o primeiro par de sapatos que vira a sua frente. Por acaso, combinavam com o vestido.
No apenas os sapatos tinham solas finas como tambm eram um pouco apertados por serem novos. Faziam parte do enxoval.
Victoria levantou-se. O duque foi para o lado dela e tomou-lhe os sapatos das mos.
- Eu posso carreg-los - protestou.
- vou p-los em minha mala. Tem certeza de que consegue andar descala?
- Acho que sim. A areia est muito macia! Depois, um pouco nervosa, acrescentou:
- O senhor no fica... chocado por eu andar assim... Fica?
- Nem por sombra. Ao contrrio, est agindo muito bem, pois ainda temos uma boa distncia a percorrer.
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De fato, andaram mais do que ele supusera.
Victoria comeava a sentir-se cansada e com fome. De sbito, ao contornarem um rochedo da costa, o duque teve uma exclamao de prazer.
Bem na frente deles havia uma baa e, ancorado na baa, como ele esperava, estava o Sereia do Mar.
Ele no contara a Victoria o que procurava.
 vista do majestoso iate, que parecia ainda maior na pequena baa do que num porto internacional, ela perguntou:
- Vamos tentar tomar aquele iate?
- Vamos - afirmou o duque. - E, como me pertence, espero que goste dele.
- ... seu? - questionou atnita. - Se isso  verdade, por que viaja nesses cargueiros imundos?
Assim que falou, lembrou-se de que no mencionara a ele que o vira chegar em um cargueiro. Felizmente o duque no notou essa falha.
- Eu lhe explicarei mais tarde - replicou o duque. Agora vamos depressa a bordo, a fim de saborearmos um delicioso caf da manh.
Victoria decidiu pr os sapatos antes de embarcar. O duque tirou-os da mala e deu-os a ela.
Ele esperava que tanto seu comandante como a tripulao cuidassem para mant-lo incgnito at segunda ordem. No o chamariam de "Vossa Graa", mas simplesmente de 
sir.
A bordo, o duque levou Victoria para a cabine mais linda que ela j vira.
Era a cabine das visitas. Em vrias ocasies, o duque recebera em seu iate mulheres famosas da Inglaterra.
Conclura contudo que, quando ia a procura de quadros, era melhor viajar sozinho.
Mulheres o distraam e no se interessavam, em geral, por arte. Queriam apenas a companhia dele como "homem".
Quando no faziam amor, elas se entediavam. E, quase sempre, sofriam de nuseas no mar.
Enquanto mostrava a Victoria a cabine cor-de-rosa, e depois a sua, o duque pensava se essa jovem maravilhosa, extremamente sedutora, uma vez a bordo do iate, no 
o desapontaria.
Ele no parecia ter pressa de ir ao salo, onde os esperava o caf da manh, mas Victoria estava ansiosa.
Ela foi lavar as mos e o rosto, arrumou um pouco os cabelos louros, e correu para o convs.
Estava linda ao entrar no salo onde o duque a aguardava. Ele comparou-a a Persfone, trazendo a primavera ao mundo envolto em trevas.
Porm, ela demonstrou o quanto era humana no modo como fez jus a cada bocado dos ovos e do bacon, e cobria as fatias de torrada com uma generosa camada de manteiga 
e mel.
- Agora sinto-me melhor! - exclamou ela com um suspiro, enquanto tomava o delicioso e perfumado caf que o criado trouxera.
- Eu tambm me sinto melhor - concordou o duque.
- E espero que nunca mais fiquemos privados de comida por to longo tempo nem tenhamos de dormir em lugar to sujo.
- No se queixe! - pediu ela. - Isso representou minha fuga da experincia mais assustadora que tive na vida. E tambm, se no viesse comigo, teria perdido seus 
quadros.
-  claro que sou imensamente grato a voc - declarou o duque com seriedade.
Victoria sorriu para ele e disse:
- Como eu poderia ter adivinhado que o senhor me traria para este maravilhoso, sensacional iate? - E colocando a xcara sobre a mesa, prosseguiu: - Por favor, posso 
visitar todo o barco, em especial a casa das mquinas? Sempre quis conhecer as mquinas de um navio.
Ela desejara muito saber como funcionavam essas mquinas, nas diversas viagens que fizera por mar. Mas sua
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timidez a impedira de sugerir isso aos comandantes.
- Terei enorme prazer em lhe mostrar todo o Sereia do Mar, de proa a popa. - O duque sorriu. - Porm, agora, acho que precisa descansar.
-  por acaso essa uma forma corts de se livrar de mim? - perguntou.
O duque sacudiu a cabea.
- Oh, no! Pensava s em seu benefcio.
- Ento, no quero descansar. Quero ver o mar Egeu, as ondas e o oceano. Pense s como isso tudo ficaria lindo nos pincis de Guardi!
O duque riu e observou:
- Nesse caso, vamos percorrer o barco. Comecemos pela ponte de comando e ver como se navega.
O duque sups que muito breve ela se cansaria daquilo, como a maior parte das mulheres, desejando falar sobre si mesma.
Para grande surpresa sua, no obstante, Victoria achou tudo fascinante e fez perguntas inteligentes sobre o iate e o comando do mesmo.
O duque no tinha ideia de que ela passara grande parte de sua infncia com o pai, um amante da navegao, que possua um pequeno barco para viajar em volta da ilha 
onde viviam.
Desde a tenra idade de trs anos no sofria de enjoos martimos, por mais turbulento que fosse o mar.
Ela e o duque visitaram tudo. Quando, enfim, voltaram ao salo, ele disse:
- No acha que j est mais que na hora de me dizer como  seu nome?
Ela assustou-se com a pergunta.
- Tria - sussurrou.
Lembrou-se logo que seria melhor dar-lhe o nome "Tria" e no "Aleris", pois em Klaklov fora anunciada como "princesa Aleris". Caso ele tivesse ouvido qualquer comentrio 
sobre a nova rainha, o nome mencionado seria "Aleris".
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- Tria? - repetiu o duque. - Muito bem, Tria, estou pronto a escutar as crticas sobre meu iate.
Embora ele estivesse seguro de que no haveria crticas, ficou satisfeito quando Victoria o confirmou:
- O senhor tem a embarcao mais linda do mundo! Agora, vamos apreciar o horizonte que se estende a perder de vista. H sempre outros horizontes e, admitir isso, 
 o nico meio de compreender a realidade da vida.
O duque encarou-a cheio de espanto. Victoria olhava para o mar e, aps algum tempo, ela falou:
- Muitas pessoas viajam com a imaginao, mas o senhor viaja em seu prprio iate, o que significa que  como Elias que subiu ao cu num carro de fogo; ou como Apoio 
conduzindo seus cavalos pelo cu, a fim de trazer luz a todos que querem v-la.
Ela falava como se fosse consigo mesma, e no com outra pessoa.
O duque pensou mais uma vez, como fizera dezenas de vezes, que ela era a mulher mais extraordinria e imprevisvel que encontrara.
Disse ento, em voz alta:
- No acredito que voc seja real, Tria! Acho que estou sonhando e que, como j falei antes, voc veio do Olimpo para nos confundir, pobres mortais.
Victoria esboou um sorriso e respondeu:
- Que comparao linda! Mas, como o senhor vai me deixar na Grcia, preciso pensar seriamente na maneira de voltar  Inglaterra.
- No disse que a deixaria na Grcia - protestou o duque.
- No desejo ser um peso nas suas costas. Quero que o senhor prometa que se afastar de mim no momento em que eu me tornar um empecilho.
- Agora que est salva, no h pressa para tomar decises.
O duque no tinha muita certeza se Victoria queria ou no ficar com ele.
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Mas podia ver, pela expresso do olhar dela, que ainda estava nervosa e apreensiva.
- O que a aborrece? - perguntou ele. - Depois de tudo por que passou e, escapando do misterioso homem que a ameaava, no h motivo para preocupaes. Ele no pode 
alcan-la aqui.
Ela no respondeu.
Pensava que seria apenas questo de tempo a rainha Victoria ser informada do que acontecera.
O conde de Rosebery contaria tudo  princesa Beatrice e todos a forariam a voltar a Klaklov e a seus deveres logo que ela chegasse  Inglaterra.
"No posso, no posso voltar!", pensava com pavor indescritvel.
Percebeu que o duque a observava atentamente.
- Venha c, Tria! - ordenou.
Ele sentava-se num dos sofs confortveis, de cor verde, que combinava com as paredes do salo. Obediente, ela aproximou-se. O duque estendeu-lhe a mo e puxou-a 
para junto de si.
- Oua - disse. - Atravessamos um momento difcil, um com o outro. Deve ter certeza, Tria, de que sou seu amigo e que a ajudarei se for preciso. No tenha mais 
medo, por favor.
Ele sentiu que a mo dela tremia. E continuou:
- Agora que estamos sozinhos no meio do mar, conteme exatamente o que v de assustador no futuro, e juntos, estou certo, poderemos afastar os perigos.
Victoria suspirou.
Como seria maravilhoso se pudesse lhe contar a verdade inteira.
Porm sabia que, sendo ele um ingls, tambm esperaria que ela cumprisse seu dever para com o Imprio Britnico e a rainha. No, no poderia lhe revelar nada!
Puxou a mo e murmurou:
- Sabe que no tenho problemas. O senhor afastou os fantasmas, e no estou com medo.
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Era mentira, e o duque percebeu, mas no disse nada.
Meramente pensou que, mais cedo ou mais tarde, descobriria a verdade que no havia de ser to horrvel como essa linda menina imaginava.
O jantar foi delicioso. E o duque insistiu que ela fosse para a cama cedo.
- Se no est cansada, eu estou! - declarou ele. H sempre um amanh, e com lindas coisas para serem vistas. Mandei que o comandante ancorasse numa baa sossegada 
para que possamos dormir em paz, sem sermos perturbados.
- Como o senhor diz... h sempre um amanh - sussurrou Victoria. - Mas... tenho tanto medo de dormir... e descobrir quando acordar que o iate e o senhor, tudo enfim, 
no tenha passado de um sonho.
- Prometo-lhe, Tria, que estarei aqui quando acordar, e o iate tambm.
- Assim sendo, vou para a cama - anuiu ela. - Porm no quero perder muito tempo dormindo.
Ela esboou um sorriso tmido.
Correu para a cabine e o duque dizia a si mesmo que nada em sua vida havia sido to extraordinrio como o que lhe acontecera em Klaklov.
Sentia-se tambm muito contente por ter conseguido trazer os trs maravilhosos quadros.
Sendo um conhecedor de pintura, lamentava no haver podido ficar mais tempo em Klaklov a fim de obter mais quadros daquela qualidade.
"De onde tero vindo essas telas? " refletia ele; e logo recordou-se de que o primo Robert dissera qualquer coisa sobre o palcio.
Seria possvel que o rei estivesse vendendo seus quadros sem o conhecimento dos conselheiros da corte ou do curador?
Ele riu diante da ideia.
Ento, se no era o rei e no havendo razo para ele estar precisando de dinheiro, quem seria o dono desses te110
souros?
A estava um problema a ser resolvido.
O outro, e mais premente, era Tria, concluiu.
Ela parecia ter sado de uma tela pintada por um grande artista como Mor ales.
"Tria  linda!", pensou o duque, "Mas por qu, sendo to linda, tem de ganhar a vida como governanta? "
O duque sabia muito bem como essas jovens se tornavam presas fceis dos caadores de mulheres.
Governantas ocupavam uma posio  parte entre os donos da casa e" os empregados, e consistiam numa conquista interessante para qualquer libertino.
Onde quer que trabalhassem, corriam o risco de serem seduzidas pelo dono da casa, pelo filho mais velho, ou por algum visitante mulherengo que no podia resistir 
a um rosto atraente.
"Ainda mais. Uma dona de casa com a cabea no lugar no contrataria Tria para ser governanta de seus filhos, tendo marido", disse para si mesmo.
Ele supunha que o desagradvel incidente de Victoria em Klaklov se repetiria sempre, no lugar em que fosse trabalhar.
"Que diabos posso fazer com ela?", pensou.
Teve medo da resposta.
Enquanto ia  cabine, dizia a si mesmo que tudo o que sucedera naquelas ltimas horas fora bem fora do comum, bem fora de sua vida rotineira.
Era como uma histria de contos de fada, na qual ele havia sido hipnotizado sem possibilidade, portanto, de raciocinar.
Ao fechar a porta da cabine teve a sensao vvida de que Tria dormia ali ao lado.
No estavam, contudo, juntos um do outro como na noite anterior quando, embora ela o ignorasse, ele a tivera nos braos e constatara que seus cabelos cheiravam a 
violetas.
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CAPTULO VII
Acabavam de jantar e o duque informou a Victoria:
- Amanh chegaremos a Atenas.
Ela levantou-se da mesa e foi para o convs.
Estava vivendo um sonho bom, e agora o duque a trouxera de volta ao pesadelo da realidade.
O iate singrava as guas vagarosamente, e eles puderam apreciar os botos brincando na superfcie, e admirar as montanhas ao longe.
Falaram sobre os mais variados assuntos.
Victoria jamais conhecera um homem que estimulara tanto sua mente a ponto de ela se achar falando coisas de que nunca se julgara capaz.
E eram temas lgicos e interessantes.
Pararam em pequenos portos e foram  praia.
Para grande espanto do duque, encontraram numa modesta capela um quadro muito bem pintado, mas que ele no conseguiu dizer quem era o artista.
Ofereceu ao padre uma quantia considervel pela tela, e o pobre homem quase rompeu em pranto.
Para o proco, aquilo representava a resposta a suas preces, pois o dinheiro seria usado para reparos urgentes na capela, e tambm para ajudar os pobres da aldeia, 
negligenciados e muitas vezes com fome.
- Vai comprar esse quadro? - ela lhe perguntou. Ento, examinou-o cuidadosamente e depois disse:
- A pessoa que o pintou o fez com o corao, talvez com a alma, e cada pincelada foi traada com amor, com muito amor.
O duque achou que ningum mais lhe daria uma expli112
cao to simples e tambm despretensiosa.
- Voc tem razo, Tria - respondeu ele. - Encontraremos um perito que, espero, confirmar que descobrimos um exemplar magnfico para meu acervo.
- Fale-me sobre seus quadros - pediu-lhe. O duque relutava em dizer quem era ele.
Vira com tanta frequncia avidez e entusiasmo nos olhos das mulheres por ele, no s como homem, mas principalmente como duque!
Para Victoria ele no passava de um indivduo qualquer que tinha dinheiro para possuir um iate, mas que, alm disso, no era nada mais que um homem comum.
O comportamento dela era muito natural, sem afetao, ao menos quando em sua companhia.
No conseguia saber se Victoria o achava atraente ou apenas o considerava um homem sem importncia para ela, como mulher.
Naquele instante, enquanto Tria caminhava pelo convs e ele a seguia, pensava que mulher alguma poderia assemelhar-se mais a uma deusa, como ele lhe dissera mais 
de uma vez.
Victoria usava o mesmo vestido de chiffon, o nico que possua consigo, mas que era leve e adequado ao clima.
Lembrava muito a roupagem com a qual a deusa Afrodite fora pintada.
Quando a luminosidade das estrelas incidiu em seus cabelos, o duque considerou-a etrea, e teve medo que ela sumisse a qualquer instante.
Ela inclinava-se no gradil do convs e, para se garantir que a moa ainda existia, o duque aproximou-se dela e viu que olhava para as estrelas.
- Pode alguma coisa ser mais bela? - perguntou ao duque. - Talvez, quando atingirmos Atenas e a civilizao, tudo se estragar.
O duque no respondeu e, aps segundos, ela disse num tom de voz diferente:
- Penso que nos separaremos, como sugeri que se fi113
zesse ao chegarmos  Grcia.
-  o que voc deseja, Tria? - O duque se exprimia com voz grave.
Victoria deu um suspiro profundo.
Ela no duvidava que se amedrontaria em ficar s, mesmo na Grcia. E, alm disso, teria de empreender a longa viagem de volta  Inglaterra, o que a apavorava ainda 
mais.
- Fiz-lhe uma pergunta, Tria.
O duque interrompeu-lhe os pensamentos.
- No... no... claro que no - gaguejou ela. - Adoraria ficar com o senhor, mas suponho que tenha outros compromissos.
- Nunca disse isso a voc.
Ele estendeu-lhe os braos e continuou:
- Quero voc,  claro que quero voc! No posso perd-la como no posso perder as estrelas que brilham acima de nossas cabeas!
Ele puxou-a para junto de si.
E, antes que Victoria pudesse se dar conta do que sucedia, os lbios do duque estavam contra os seus.
Ele beijou-a, suavemente de incio. Depois, como ela no relutasse, e ele sentisse enorme prazer na pureza dos lbios macios, seu beijo tornou-se mais apaixonado.
Percebeu, no prolongado beijo, que ela era diferente de qualquer outra mulher que beijara anteriormente.
Sentiu que ela lhe fora mandada do Olimpo, que no era humana e sim o amor propriamente dito.
O amor como se pintava em quadros, mas que ele nunca encontrara na vida at aquele instante.
Para Victoria, o cu parecia se abrir e as estrelas invadiam-lhe o peito.
Nunca havia sido beijada antes, e sempre se questionava se o beijo seria na verdade to maravilhoso como os poetas o cantavam.
Ela achava tambm que o amor tinha parte integrante " na msica.
Quando o duque comeou a beij-la com mais insistn114
cia, transportou-a para um xtase, numa sensao diferente da sentida nos beijos anteriores; e um frenesi percorreu-lhe o corpo todo.
Esse xtase foi sentido igualmente pelo duque, e carregou ambos para o cu.
Foi ento que Victoria se deu conta do que era o amor; o amor com que sonhara, o amor que pedira a Deus para que um dia tivesse a graa de conhecer.
Era maravilhoso, to arrebatador que ela instintivamente rendeu-se a esse enlevo e entregou-se de corpo e alma ao duque.
Ele beijou-a levando-a quase  loucura. Depois, ergueu a cabea e sussurrou:
- Eu adoro voc, minha querida! Amei-a desde o primeiro momento em que a vi. Em breve nos casaremos e voc ser minha para sempre.
Ele a teria beijado mais, porm Victoria indagou, com voz trmula:
- Podemos... mesmo... nos casar?
-  o que vamos fazer. Meu tesouro, no lhe revelei ainda, mas sou o duque de Cannuncliff, e voc ser a duquesa mais linda que j honrou o nome de minha famlia.
Victoria retesou o corpo.
E, com a mesma voz trmula, a mesma que ele ouvira em seu primeiro encontro, ela gaguejou:
- O que... est... dizendo? O que... est... me contando? Seu nome no  Cliff?
- Esse  parte de meu nome, que eu uso quando viajo
- explicou o duque. - Do contrrio, qualquer objeto que deseje adquirir me custar o dobro do preo.
- Quer dizer... que ... um duque?
- Sim, sou um duque - confirmou ele sorrindo. Victoria comeou a chorar.
- No! No, no, no!  um duque? No posso mais... me casar... com voc.  claro que no posso. Oh, como  possvel que isso tenha acontecido?
O duque encarava-a, cheio de espanto.
com lgrimas correndo pelas faces, Victoria fugiu dele. Desapareceu do convs e, descendo as escadas, foi para sua cabine.
Por segundos o dUque ficou confuso e no se moveu.
Jamais sonhara, jamais imaginara que uma mulher a quem propusesse casamento no se encantasse ao descobrir que ele era um duque.
Antes de sair de Londres, ele fugira de todas as armadilhas, de todas as presses para que se casasse.
Teve dezenas de insinuaes e pedidos, e escapou de todos eles.
No eram apenas as ambiciosas mames com filhas em idade de casar que o procuravam.
Mas tambm as vivas e at mulheres casadas que aceitariam a ignomnia de um divrcio se pudessem se transformar em duquesas.
E agora aquela menina, que fora a Klaklov para trabalhar como governanta, ficara horrorizada ao saber de seu ttulo, e recusava casar-se com ele por causa disso.
"No posso entender", dizia a si mesmo.
Ele atravessou o convs e, resolutamente, desceu.
Sabia que a encontraria em sua cabine e, sem bater, abriu a porta e entrou.
A luz estava acesa. Ele viu-a deitada na cama, de bruos, o rosto enterrado no travesseiro, chorando copiosamente.
Fechou a porta atrs de si e sentou-se na beirada do leito.
- O que a aborreceu, meu amor? - interrogou. No  de seu feitio chorar desse jeito.
Victoria no deu explicaes.
- Voc foi bastante corajosa ao escapar do que a apavorava - prosseguiu o duque. - Foi bastante valente em viajar naquele barco imundo e malcheiroso. No teve medo 
de ficar aqui comigo sozinha no-iate, sem uma dama de companhia! Que houve? - Ele fez uma pausa, antes de acrescentar: - Agora, conte-me o que a perturba!
Victoria ainda no falou e, aps um momento, ele disse:
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- Achava, quando a beijei minutos atrs, que me amava ao menos um pouquinho.
- Eu... amo voc - balbuciou. - Eu amo... voc... com todo meu corao, com toda minha alma.
Ela deu um soluo e, em seguida, confessou:
- Rezei... rezei... para que voc me amasse tambm um pouco.
- Eu amo voc mais do que um pouco - admitiu o duque com carinho. - E no posso enxergar qualquer razo que impea nosso casamento.
Victoria no respondeu, e ele, com ambas as mos, a fez virar na cama at deit-la de costas, fitando-o.
As faces dela estavam molhadas de lgrimas. Vendo-a to linda e ao mesmo tempo to desamparada, achou que mulher alguma podia ser assim encantadora.
- Eu adoro voc, meu tesouro - repetiu ele. - Agora conte-me por que no quer se casar comigo.
Victoria fez um gesto de desnimo com as mos. Pegou no brao do duque, como para angariar as foras de que necessitava.
- Pensei - murmurou ela com voz hesitante - que voc fosse apenas o sr. Cliff, e que, se estivesse disposto a dar esse passo maravilhoso de se casar comigo, poderamos 
viver quietamente... numa linda casinha, sem que ningum soubesse.
- Soubesse o qu, Tria?
Victoria titubeava em falar, e ele insistiu:
- Conte-me, meu amor, o que voc fez que torna impossvel seu casamento comigo, por ser eu um duque.
Victoria comeou a chorar de novo. Enquanto as lgrimas corriam vagarosamente por suas faces, ela enfim declarou:
- Depois que lhe contar... voc deixar de me amar. Por isso... por favor... beije-me uma vez mais.
- No uma vez mais, querida. Eu a beijarei pelo resto de nossas vidas juntos.  o que pretendo fazer.
Ele abraou-a e, inclinando-se, beijou-a com muito
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fervor.
Beijou-a com veemncia, e Victoria percebeu que a arma que ele usava para convenc-la eram os beijos.
Beijos apaixonados, vidos, ardentes, como se tivesse medo de perd-la.
Quando ambos quase no podiam respirar, o duque largou-a e levantou-se.
Surpreendentemente, foi para o outro lado da cama, deitou-se ao lado dela, e envolveu-a com os braos.
Quando ela encostou a cabea em seu ombro, o duque insistiu:
- Conte-me o qu vem escondendo de mim desde o momento em que entrou na casa de meu primo. - Ele beijou-a na testa e acrescentou: - Se cometeu um crime, se roubou 
as jias da coroa, ainda a amarei, quanto a isso no h a menor dvida.
Victoria chegou-se ainda mais perto dele.
Por saber o que ela desejava mesmo sem pedir, o duque tirou o leno do bolso de seu traje de noite e ofereceu-o.
Victoria enxugou o rosto e apoiou a cabea de novo no ombro do duque.
Ele beijou-lhe os cabelos e sussurrou-lhe ao ouvido:
- Estou esperando!
- Eu sou... a princesa Aleris! - gaguejou. O duque, perplexo, repetiu:
- A princesa Aleris? A que devia se casar com o rei Inged?
- Sabia que voc ficaria chocado - ela falou com desespero. - Chocado como ficaro a rainha Victoria e o conde de Rosebery. Ambos se irritaro comigo e me faro 
voltar para o rei... Mas no posso me casar com ele... no posso.  um homem horrvel... desprezvel... bestial. Por isso... fugi.
O duque abraou-a com mais fora.
- Voc fugiu; muito bem - disse ele. - Mas eu lhe prometi que estaria a salvo comigo. Agora, conte-me o
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resto da histria.
- No estou... a salvo. - O tom de voz dela era pattico. - Achei que, se ficasse com voc, ningum se interessaria por mim, uma simples sra. Cliff. Mas, como pode 
me esconder... como sua esposa? E, tal qual o resto dos ingleses, voc vai achar que deverei cumprir meu dever e salvar Klaklov.
- No acho nada disso! - protestou o duque. - O que penso, e  a pura verdade,  que voc  minha, parte de mim mesmo, e que fomos destinados um para o outro desde 
o comeo dos tempos.
Victoria fitou-o intrigada.
- Pensa... mesmo isso?
- Juro, querida! Ningum, por mais importante que seja, vai tirar voc de mim.
Ela encarava-o, como se duvidasse de que estivesse dizendo a verdade. Escondendo o rosto no pescoo do duque, observou:
- Voc... me salvou... e talvez possa me levar para um local onde pessoa alguma me encontre. Assim, estaremos juntos e eu o amarei para sempre!
- Ficar comigo como minha esposa! - reiterou o duque com firmeza. - Mas, meu amor, o que exatamente aconteceu e como, ao chegar a Klaklov, soube, depois de tudo 
ter sido planejado, que no poderia se casar com o rei? Chegou no mesmo dia em que eu, no foi?
Hesitante, por se sentir envergonhada da situao, Victoria contou-lhe como seu casamento fora arranjado s pressas, e como, apesar de sua me haver tido problema 
de coluna, o conde de Rosebery ainda insistira que o plano fosse levado a termo.
- Voc devia ter sabido alguma coisa acerca da situao poltica em Klaklov - aventou o duque. - Ignorava por completo que o povo da cidade no estava satisfeito 
com o rei?
Victoria confessou que no sabia de nada, mas que s achara esquisito o comportamento do rei, j desde sua
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chegada.
Contou que ele mal falara com ela, e tinha o olhar distante o tempo todo.
Ela falava com voz to baixa que o duque a ouvia com dificuldade.
Victoria disse ento que julgara interessante conversar com o rei antes que a cerimnia do casamento tivesse lugar.
E contou como fora ao quarto dele.
Enquanto descrevia a cena do quarto, escondia o rosto contra o ombro do duque, e ele pde perceber que todo o corpo dela tremia.
Assim que terminou de falar, o duque abraou-a com carinho.
- E por isso voc fugiu - disse ele. - Foi muito corajosa!
- Tinha visto voc desembarcar quando meu navio aportou - disse ela. - Desconfiei que fosse ingls, e pedi a um dos ajudantes-de-ordens que descobrisse o seu nome. 
Ele me informou no apenas seu nome como tambm seu endereo, ao lado da embaixada britnica.
- Notei que havia uma recepo no cais - comentou o duque. - Mas no estava interessado naquilo, apenas ansioso por chegar  casa de meu primo e ver os quadros sobre 
os quais ele falara.
- Fiquei pensando em voc - sussurrou ela. - E acho, na verdade, que me apaixonei naquele exato momento.
- Como eu me apaixonei por voc  primeira vista. Quando entrou no salo da casa de meu primo, considereia a mulher mais linda do mundo.
- Oh, querido...  verdade mesmo?
- Pura verdade. Como voc, amei-a assim que a vi e, por termos sido destinados um ao outro, nada nos separar.
- Mas... no pode se casar comigo... no pode! - exclamava desesperada. - Sabe como a rainha Victoria fica furiosa ao ver seus planos transtornados. Ela pode
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expulsar mame do abrigo e... ns no temos dinheiro.
- Isso vem em segundo plano. O importante  fazermos a rainha e todos entenderem que voc no poderia se casar com um dependente de drogas.
Ela estremeceu ao ouvir essas palavras.
- Esquea-o - ordenou o duque. - Ele no interessa a ns; a nica coisa que nos interessa  nosso amor.
Ele beijou-a at que o corao dela batesse to frentico quanto o seu.
Quando, enfim, o duque saiu da cabine para que Victoria dormisse, ela teve a impresso de que, apesar do amor que os unia, estavam vivendo um sonho impossvel.
Como poderia ela se casar com o duque de Cannuncliff, e arruinar-lhe a vida?
Mesmo amando-se como se amavam, ele precisava pensar em sua posio social.
Como duque, tinha uma famlia tradicional a respeitar, e um dever a cumprir perante a rainha e seu pas.
"Preciso deix-lo", admitiu com tristeza. "Talvez eu possa viver numa aldeia distante onde ele v me visitar de vez em quando."
Mas concluiu logo ser essa uma ideia que no poderia realizar.
Antes de adormecer de puro cansao, acreditou que a nica soluo plausvel seria morrer.
Ao mesmo tempo, queria viver; queria estar com o duque; queria entregar-se a ele totalmente.
Quem sabe, um dia, se Deus os abenoasse, dar-lhes-ia um filho semelhante a ele.
"Oh, ajude-me, ajude-me, papai", pedia ela sabendo que o pai a entenderia. Ele amara sua me com fervor.
Embora tivesse tentado encorajar Victoria, o duque, na escurido de sua cabine, conjeturava com desespero o que fazer para dar soluo ao problema.
Entendia naquele instante, e claramente, por que o casamento arranjado pela rainha Victoria precisava ter se
realizado com tanta pressa.
Se havia descontentamento entre o povo de Klaklov, e se alguns revolucionrios se preparavam para embargar a cerimnia, a pressa era explicvel.
O duque lembrou-se do rudo de tiro de pistola durante a noite, na casa do primo.
No quisera assustar Victoria, mas o casal de empregados estava apavorado.
Preveniram-no do perigo, pois a oposio ao casamento real crescia minuto a minuto.
"Graas a Deus afastei-a daquilo", disse ele a si mesmo.
Contudo, no podia subestimar as dificuldades que o aguardavam.
Porm, qualquer coisa dentro dele dizia que, o que quer que sucedesse, no desistiria de Victoria.
Se o demnio em pessoa tentasse impedi-lo de a possuir, se casariam da mesma forma.
No conseguindo quase dormir, levantou-se de madrugada e, j vestido, bateu na cabine de Victoria.
No esperou pela resposta e abriu a porta.
Ela no dormia e abrira a cortina da escotilha para ver a aurora surgir timidamente no horizonte.
Os primeiros raios do sol douravam seus cabelos, e o duque comparou-os a uma aurola.
Victoria parecia uma santa, ou um anjo pintado numa das telas que adquirira para sua coleo.
No primeiro momento, ela no percebeu que o duque estava ali. Depois, estendeu-lhe os braos, dando uma exclamao de prazer.
O duque foi para perto da cama e, sem falar nada, beijou-a. Ambos comearam a fazer parte integrante da luz solar que penetrava na cabine.
- Sonhei... com voc - declarou ela.
- E eu pensei em voc a noite toda. vou agora mesmo dizer ao comandante que ancore no prximo porto para que eu possa ir a terra descobrir o que se passou em Klaklov.
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- No vai deixar... ningum saber que estou aqui, no?
- pediu assustada.
- Estar bastante segura at minha volta. No se levante j, meu amor. Acredito que nada ser to desastroso como tememos.
- Todos estaro... procurando por mim - sussurrou.
- Mas no a acharo. O mundo  muito grande, e encontraremos esconderijos em qualquer lugar para onde formos juntos.
- Se isso pudesse ser verdade...
-  verdade, querida! Ele beijou-a mais uma vez.
com esforo, foi at a porta. De l, disse:
- Apenas reze e creia na misericrdia divina! Ela no falha.
- E se foi.
Victoria rezou por muito tempo antes de se levantar e se vestir.
No podia deixar de sentir um pouco de pena por ter deixado no palcio de Klaklov os lindos vestidos que a me escolhera para ela.
Pensou tambm no traje de noiva e no vu que lhe cobriria o rosto caindo at os ombros. Estremeceu.
Deus a guiara na fuga do palcio, permitindo que ela escapasse pelo porto, sem que as sentinelas a postos a vissem.
Sabia que fora Deus que a conduzira ao homem de nome Terence Cliff, o mesmo homem que agora ela amava com todas as foras de seu ser.
"Eu amo Terence... Eu o amo!", ela repetia mentalmente.
Continuava pensando, como pensara na noite anterior, que no poderia viver sem ele.
Tomou caf na cabine e, embora ansiasse por ir ao convs e esperar ali pela volta do duque, teve medo. Algum/ no cais talvez a reconhecesse.
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Seria uma chance em um milho, mas uma chance, afinal; e essas coisas aconteciam s vezes. No obstante, se houvesse uma suspeita de que a princesa Aleris fugira 
do palcio, com certeza seu retrato j estaria estampado nos jornais.
Algum podia at ligar o desaparecimento do iate do porto prximo a Klaklov, ao desaparecimento dela. i Imaginar-se-ia que o duque a abrigara.
Tudo isso passou-lhe pela mente. Precisava, portanto, ter muito, muito cuidado.
Sentou-se na cama por algum tempo; em seguida, foi  cabine do duque para se sentir mais perto dele.
com ternura, tocou a escova de cabelo que ele usava, beijou o travesseiro onde a cabea dele repousava durante a noite.
Aps algumas horas, como no houvesse sinal de sua volta, comeou a se preocupar.
"Que poder ter acontecido a Terence? " pensou.
Estaria ele naquele momento sendo interrogado por haver estado em Klaklov?
De sbito, ouviu passos descendo a escada, e deu um salto.
A porta da cabine se abriu. Era o duque. Abraaram-se.
- Estava apavorada... apavorada por voc demorar tanto! - exclamou. - Oh, querido, tudo est bem? No esto procurando... por mim? Diga-me que ningum est procurando 
por mim!
O duque abraou-a com fora e fechou a porta. Depois, como Victoria o fitasse intrigada, ele declarou:
- Ns vencemos, meu tesouro! Ns vencemos! Tudo vai bem!
- Como...  possvel? - indagou Victoria, com ansiedade e desespero.
Fazia muito calor. O duque tirou a jaqueta esporte que usava e jogou-a numa cadeira.
Tomou-a pelo brao e ambos sentaram-se no leito.
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- Que houve? - insistiu ela.
O duque fez uma pausa, procurando as palavras certas. Depois, disse:
- Sinto muito dizer-lhe, meu amor, que ter por marido um heri. Espero que no se importe.
- Um... heri? - ela repetiu. - Mas... como?
Os olhos do duque brilhavam e Victoria fitava-o atnita. Ele explicou:
- Para fazer as coisas claras e fceis de serem entendidas, inventei uma histria surpreendente a fim de justificar por que voc se encontra aqui, em meu iate.
- Contou a algum... que estou... aqui? - perguntou horrorizada.
- Contei.
- No... entendo.
Ele beijou-a com carinho.
- Eu sei, meu amor. E a vai minha histria. Quando soube que o rei Inged havia sido assassinado, na vspera do casamento, criei uma srie de fatos para explicar 
a razo de voc estar ainda viva.
- O rei... foi... assassinado? - murmurou.
- Os revolucionrios invadiram o palcio, subjugaram os guardas e mataram o rei antes que algum pudesse tomar alguma providncia. Em seguida, procuraram por voc.
- E eu... j tinha fugido...
- Nada disso! - corrigiu-a o duque. -  para constar que voc ainda se achava no palcio. Mas um ingls, que estava por acaso na cidade, sob o nome de Terence Cliff, 
concluiu que uma patrcia sua encontrava-se em perigo.
Victoria ouvia-o de olhos arregalados, e o duque continuou:
- Esse ingls entrou no palcio e, com o auxlio de Deus apenas, conseguiu tirar voc de l segundos antes de os revolucionrios a terem achado para mat-la. - O 
duque esboou um sorriso e prosseguiu: - Corremos ento
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pelas ruas e, com enorme dificuldade, persuadimos o comandante de um cargueiro desagradvel e imundo a nos levar  segurana. Ele sorriu antes de acrescentar:
- E, naturalmente, voc sabe o fim da histria fantstica.
- Contou tudo isso ao embaixador, e ele acreditou em voc?
- Claro que acreditou. At cumprimentou-me por eu saber instintivamente que voc estava em perigo, e por ter a brilhante ideia e bravura de salv-la. - Ele deu um 
suspiro e acrescentou: - vou com certeza ser condecorado pela rainha quando voltarmos  Inglaterra. E somente voc, meu tesouro, saber que sou um impostor, um mentiroso.
- Voc no ... nada disso - protestou ela. - Voc me salvou. Mas... isso significa que podemos nos casar? Tem certeza?
- Claro que devemos nos casar - replicou o duque.
- Pode imaginar que Sua Majestade a rainha Victoria aprove qualquer outra atitude, quando passamos j trs noites juntos, voc sozinha comigo, sem uma dama de companhia?
Victoria riu muito.
- No acredito que isso seja possvel, querido.
- Ser possvel. - O duque sorriu. - No tenho outra opo alm de pedir sua mo em casamento. - Ele puxou-a para mais perto e disse: - Vamos nos casar imediatamente 
e, uma vez que no queremos assistncia, nos casaremos na primeira ilha que encontrarmos, onde houver uma igreja e um padre.
Podemos de fato... fazer isso? - perguntou Victoria.
-  o que vamos fazer. Depois, minha querida, voltaremos  Inglaterra, antes passando por Veneza. H alguns quadros que quero mostrar a voc. - Beijou-a nas faces 
e prosseguiu: - Iremos tambm a Npoles e a Mar-
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selha. No h pressa para nada. Ah, podemos dar um pulo ao norte da frica antes de aportarmos em Marselha.
- No importa aonde vamos, desde que eu esteja com voc - confessou Victoria com paixo.
- Pode ter certeza absoluta de que estaremos sempre juntos, e de que seremos muito felizes. De Marselha seguiremos para Paris onde tenciono lhe comprar o enxoval 
mais lindo que uma duquesa j teve. Em seguida, se no tivermos nada mais a fazer, voltaremos para casa.
Victoria cobriu o rosto com as mos.
- Devo estar sonhando... Sei que estou sonhando murmurou.
- Tudo  verdade, querida, ou melhor, ser verdade. E, naturalmente, voc ter muito orgulho de seu marido "heri" que a salvou dos cruis assassinos!
- Eu amo voc... Eu adoro voc! S no quero desapont-lo como sua esposa.
O duque beijou-a muito suavemente, e informou:
- J mandei um telegrama  rainha contando-lhe o ocorrido, e tambm ao conde de Rosebery pedindo que dissesse a sua me que voc est perfeitamente bem, apenas sofrendo 
um pouco as consequncias do choque que levou. Por essa razo, s voltaremos  Inglaterra quando puder aguentar a longa viagem.
Victoria aplaudiu-o e disse:
- Voc pensa em tudo!
- Penso em voc, sim e em tudo que se relaciona a voc e ao nosso casamento.
Enquanto ele falava Victoria notou que as mquinas comeavam a funcionar, e o iate se punha em movimento.
- Vamos nos casar! - exclamou ela. - Porm, querido, no tenho vestido de noiva!
- Pensei nisso tambm. - O duque sorriu. - Quero que use a mesma roupa de ontem  noite.
- A mesma roupa? - interrogou Victoria.
- Sim, a mesma roupa. Comprei um vu e um enorme mao de flores brancas. Um de meus marinheiros 
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bastante hbil em fazer buques.
- Como pode ser to maravilhoso, Terence? - A voz dela tremia de emoo.
-  exatamente o que ia dizer sobre voc, amor! E, minha querida, penso que ser muito romntico nos casarmos na Grcia, pas dos deuses que estiveram conosco esse 
tempo todo.
- Concordo com voc, querido.
- E agora, no h mais nada que a assuste e que a impea de ser feliz, minha adorada deusa.
- Como posso no ser feliz... estando com voc? Eu te amo, oh, querido, meu marido heri... Amarei voc at que o mundo todo, o cu e o mar estejam cheios de amor 
e de nada mais.
-  no que estava pensando - replicou o duque prontamente.
Depois beijou-a de novo. Beijou-a sem parar, e no havia coisa alguma ao redor deles alm do brilho do sol, do amor que os unia, e do fato de se terem encontrado 
na vida.
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QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos 
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri 
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso 
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara 
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por 
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
Fim
